Archive for Novembro, 2013

Nevoeiro
Novembro 27, 2013

Nem rei nem lei, nem paz nem guerra,

define com perfil e ser

este fulgor baço da terra

que é Portugal a entristecer –

brilho sem luz e sem arder,

como o que o fogo-fátuo encerra.

.

Ninguém sabe que coisa quer.

Ninguém conhece que alma tem,

nem o que é mal nem o que é bem.

( Que ânsia distante perto chora?)

Tudo é incerto e derradeiro.

Tudo é disperso, nada é inteiro.

Ó Portugal, hoje és nevoeiro…

.

É a hora!

nevoeiro

Fernando Pessoa

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Nada nos pode consolar
Novembro 20, 2013

Nada nos pode consolar

do excessivo peso do amor

que oprime como a noite

cheia de não saber

como tudo o que é divino

e inventado

.

De facto

não amamos como as flores

totalmente simples na sua entrega

Quando amamos

deixamos de ser o que somos

transfigurados pelo desejo

que mata  destrói  violenta tudo

night

Ana  Hatherly

A poesia vai acabar
Novembro 13, 2013

A poesia vai acabar, os poetas

vão ser colocados em lugares mais úteis.

Por exemplo, observadores de pássaros

(enquanto os pássaros não

acabarem). Esta certeza tive-a hoje ao entrar

numa repartição pública.

Um senhor míope atendia devagar

ao balcão; eu perguntei: “Que fez algum

poeta por este senhor?” E a pergunta

afligiu-me tanto por dentro e por

fora da cabeça que tive que voltar a ler

toda a poesia desde o princípio do mundo.

Uma pergunta numa cabeça.

– Como uma coroa de espinhos:

estão todos a ver onde o autor quer chegar? –

escolher_livro_ou_fechar

Manuel António Pina

Resgate
Novembro 6, 2013

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Há qualquer coisa aqui de que não gostam

da terra das pessoas ou talvez

deles próprios

cortam isto e aquilo e sobretudo

cortam em nós

culpados sem sabermos de quê

transformados em números estatísticas

défices de vida e de sonho

dívida pública dívida

de alma

há qualquer coisa em nós de que não gostam

talvez o riso esse

desperdício.

.

Trazem palavras de outra língua

e quando falam a boca não tem lábios

trazem sermões e regras e dias sem futuro

nós pecadores do sul nos confessamos

amamos a terra o vinho o sol o mar

amamos o amor e não pedimos desculpa.

.

Por isso podem cortar

punir

tirar a música às vogais

recrutar quem vos sirva

não podem cortar o verão

nem o azul que mora

aqui

não podem cortar quem somos.

Manuel Alegre