Archive for Abril, 2014

Quando eu morrer
Abril 30, 2014

quando eu morrer murmura esta canção

que escrevo para ti. quando eu morrer

fica junto de mim, não queiras ver

as aves pardas do anoitecer

a revoar na minha solidão.

 

quando eu morrer segura a minha mão,

põe os olhos nos meus se puder ser,

se inda neles a luz esmorecer,

e diz do nosso amor como se não

 

tivesse de acabar,

sempre a doer, sempre a doer de tanta perfeição

que ao deixar de bater-me o coração

fique por nós o teu inda a bater,

quando eu morrer segura a minha mão.

Quando eu morrer murmura esta canção</p><br /><br />
<p>que escrevo para ti. quando eu morrer</p><br /><br />
<p>fica junto de mim, não queiras ver</p><br /><br />
<p>as aves pardas do anoitecer</p><br /><br />
<p>a revoar na minha solidão. </p><br /><br />
<p>quando eu morrer segura a minha mão,</p><br /><br />
<p>põe os olhos nos meus se puder ser,</p><br /><br />
<p>se inda neles a luz esmorecer,</p><br /><br />
<p>e diz do nosso amor como se não </p><br /><br />
<p>tivesse de acabar,</p><br /><br />
<p>sempre a doer, sempre a doer de tanta perfeição</p><br /><br />
<p>que ao deixar de bater-me o coração</p><br /><br />
<p>fique por nós o teu inda a bater,</p><br /><br />
<p>quando eu morrer segura a minha mão. </p><br /><br />
<p>Vasco Graça Moura, in "Antologia dos Sessenta Anos"

Vasco Graça Moura,    em    “Antologia dos Sessenta Anos”

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Noite de Abril
Abril 26, 2014

Hoje, noite de Abril, sem lua,

a minha rua

é outra rua.

.

Talvez por ser mais que nenhuma escura

e bailar o vento leste

a noite de hoje veste

as coisas conhecidas da aventura.

Foz

Uma rua nova destruiu a rua do costume.

Como se sempre nela houvesse este perfume

de vento leste e Primavera,

à sombra dos muros espera

.

alguém que ela não conhece.

E às vezes, o silêncio estremece

como se fosse a hora de passar alguém

que só hoje não vem.

.

Sophia de Mello Breyner Andersen

Quando o amor morrer dentro de ti
Abril 18, 2014

Quando o amor morrer dentro de ti,
caminha para o alto onde haja espaço,
e com o silêncio outrora pressentido
molda em duas colunas os teus braços.

.
Relembra a confusão dos pensamentos,
e neles ateia o fogo adormecido
que uma vez, sonho de amor, teu peito ferido
espalhou generoso aos quatro ventos.

.
Aos que passarem dá-lhes o abrigo
e o nocturno calor que se debruça
sobre as faces brilhantes de soluços.

.
E se ninguém vier, ergue o sudário
que mil saudosas lágrimas velaram;
desfralda na tua alma o inventário
do templo onde a vida ora de bruços
a Deus e aos sonhos que gelaram.

só

Ruy Cinatti,   em  “Obra Poética”

A um poeta que rejeitou a sua obra
Abril 12, 2014

Não entres de bom modo nesta noite escura, disse outro poeta,

não entres sem deixar atroar pelas paredes todas

a violência do teu “não”.

.

Querem sempre reduzir-nos a uma pequena frase

de resumo e simplificação,

la petite phrase qui nous conduit au monde plus vrai de l’art

e assim nos vem roubar toda a música do mundo,

não é isto?

Não consintas.

.

Se nada podemos fazer contra a estátua de pedra

ou de sal

em que nos querem transformar,

ao menos deixemos ficar o grito

dissonante

da nossa recusa,

com toda a raiva e o amor que os brutos não entendem.

.

E só depois morrer.

noite 2

Luís Filipe Castro Mendes

Com palavras
Abril 4, 2014

Com palavras me ergo em cada dia! 
Com palavras lavo, nas manhãs, o rosto 
e saio para a rua. 
Com palavras – inaudíveis – grito 
para rasgar os risos que nos cercam. 
Ah!, de palavras estamos todos cheios. 
Possuímos arquivos, sabemo-las de cor 
em quatro ou cinco línguas. 
Tomamo-las à noite em comprimidos 
para dormir o cansaço. 
As palavras embrulham-se na língua. 
As mais puras transformam-se, violáceas, 
roxas de silêncio. De que servem 
asfixiadas em saliva, prisioneiras? 
Possuímos, das palavras, as mais belas; 
as que seivam o amor, a liberdade… 
Engulo-as perguntando-me se um dia 
as poderei navegar; se alguma vez 
dilatarei o pulmão que as encerra. 
Atravessa-nos um rio de palavras: 
Com elas eu me deito, me levanto, 
e faltam-me palavras para contar…

silence

Egito  Gonçalves