Archive for Maio, 2014

A noite na ilha
Maio 29, 2014

Dormi contigo toda a noite

junto ao mar, na ilha.

Eras doce e selvagem entre o prazer e o sono,

entre o fogo e a água.

.

Os nossos sonos uniram-se

talvez muito tarde

no alto ou no fundo,

em cima como ramos que um mesmo vento agita,

em baixo como vermelhas raízes que se tocam.

.

O teu sono separou-se

talvez do meu

e andava à minha procura

pelo mar escuro

como dantes,

quando ainda não existias,

quando sem te avistar

naveguei a teu lado

e os teus olhos buscavam

o que agora

– pão, vinho, amor e cólera –

te dou às mãos cheias,

porque tu és a taça

que esperava os dons da minha vida.

.

Dormi contigo

toda a noite enquanto

a terra escura gira

com os vivos e os mortos,

e ao acordar de repente

no meio da sombra

o meu braço cingia a tua cintura.

Nem a noite nem o sono

puderam separar-nos.

.

Dormi contigo

e, ao acordar, a tua boca,

saída do teu sono,

trouxe-me o sabor da terra,

da água do mar, das algas,

do âmago da tua vida,

e recebi teu beijo,

molhado pela aurora,

como se me viesse

do mar que nos cerca.

ilha

Pablo Neruda

O tempo não importa
Maio 24, 2014

Na convivência, o tempo não importa.
Se for um minuto, uma hora, uma vida.
O que importa é o que ficou deste minuto,
desta hora, desta vida…
Lembra que o que importa
… é tudo que semeares colherás.
Por isso, marca a tua passagem,
deixa algo de ti,…
do teu minuto,
da tua hora,
do teu dia,
da tua vida.

Mário Quintana

Mário  Quintana

Lápide
Maio 18, 2014

Luís Vaz de Camões.

Poeta infortunado e tutelar.

Fez o milagre de ressuscitar

a Pátria em que nasceu.

Quando, vidente, a viu

a caminho da negra sepultura,

num poema de amor e de aventura

deu-lhe a vida

perdida.

E agora,

nesta segunda hora

de vil tristeza,

imortal,

é ele ainda a única certeza

de Portugal.

camoes

Miguel Torga

Chorosos versos meus
Maio 13, 2014

Chorosos versos meus desentoados,

sem arte, sem beleza e sem brandura,

urdidos pela mão da Desventura,

pela baça tristeza envenenados.

.

Vede a luz, não busqueis, desesperados,

no mundo esquecimento, a sepultura;

se os ditosos vos lerem sem ternura,

ler-vos-ão com ternura os desgraçados.

.

Não vos inspire, ó versos, cobardia

da sátira mordaz o furor louco,

da maldizente voz a tirania.

.

Desculpa tendes, se valeis tão pouco;

que não pode cantar com melodia

um peito, de gemer cansado e rouco.

Bocage

Bocage

Névoa
Maio 7, 2014

Os candeeiros flutuam, líricos, na névoa.

Os sons chegam macios, o tempo parou

e o asfalto desfez-se em estrelas.

.

– Chove na cidade adormecida… –

.

Como é bom saber que também dormes descansada!

Como é bom cantar para ti, na névoa nocturna,

uma canção de embalar

e húmida de chuva!

nevoeiro

Cristóvam Pavia