Archive for Julho, 2014

Dantes
Julho 28, 2014

Quando ia passear contigo ao campo,
tu ias sempre a rir e a cantar;
e lembra-me até uma cotovia
que um dia se calou pra te escutar,

enquanto eu apanhava os malmequeres
que nos cumprimentavam da estrada,
que, depois esfolhavas, impiedoso,
na eterna pergunta: muito ou nada?

Tu beijavas as f´ridas carminadas
que, em meus dedos, faziam os espinhos
das rosas que coravam, vergonhosas,
zangadas, de nos ver assim sozinhos.

Fitávamos as nuvens do espaço.
Que imensas! Que bonitas e que estranhas!
E ficávamos horas a pensar
se seriam castelos ou montanhas…

Que adoráveis canções de mimo e graça
os teus lábios proferiram a cantar!
tão mimosas, que as relvas da campina
ficavam pensativas a sonhar…

As fontes murmuravam docemente,
os teus beijos cantavam namorados;
cintilavam as pedras do caminho,
sorriam as flores pelos valados…

À hora sonhadora do poente
tinham maiores palpitações os ninhos.
Lembras-te? Íamos lavar as mãos,
vermelhas das amoras dos caminhos.

Eu brincava a correr atrás de ti;
uma sombra perseguindo um clarão…
E no seio da noite, os nossos passos
pareciam encher de sol a ’scuridão!

Olhando tanta estrela, tu dizias:
olha a chuva de prata que nos cobre!
Depois, numa expressão amarga e branda
recitavas, chorando, António Nobre!…

Eu tinha medo, um medo atroz infindo
de passar pelos campos a tal hora,
mas, olhando os teus olhos cintilantes,
a noite semelhava uma aurora!

E já passaram esses áureos tempos,
e já fugiu a nossa mocidade!…
Mas quando penso nesses dias lindos,
que tortura, minh’alma, e que saudade!

Em “Trocando olhares” 1915-1917
Florbela Espanca

DANTES</p><br />
<p>Quando ia passear contigo ao campo,<br /><br />
Tu ias sempre a rir e a cantar;<br /><br />
E lembra-me até uma cotovia<br /><br />
Que um dia se calou pra te escutar,</p><br />
<p>Enquanto eu apanhava os malmequeres<br /><br />
Que nos cumprimentavam da estrada,<br /><br />
Que, depois esfolhavas, impiedoso,<br /><br />
Na eterna pergunta: muito ou nada?</p><br />
<p>Tu beijavas as f´ridas carminadas<br /><br />
Que, em meus dedos, faziam os espinhos<br /><br />
Das rosas que coravam, vergonhosas,<br /><br />
Zangadas, de nos ver assim sozinhos.</p><br />
<p>Fitávamos as nuvens do espaço.<br /><br />
Que imensas! Que bonitas e que estranhas!<br /><br />
E ficávamos horas a pensar<br /><br />
Se seriam castelos ou montanhas...</p><br />
<p>Que adoráveis canções de mimo e graça<br /><br />
Os teus lábios proferiram a cantar!<br /><br />
Tão mimosas, que as relvas da campina<br /><br />
Ficavam pensativas a sonhar...</p><br />
<p>As fontes murmuravam docemente,<br /><br />
Os teus beijos cantavam namorados;<br /><br />
Cintilavam as pedras do caminho,<br /><br />
Sorriam as flores pelos valados...</p><br />
<p>À hora sonhadora do poente<br /><br />
Tinham maiores palpitações os ninhos.<br /><br />
Lembras-te? Íamos lavar as mãos,<br /><br />
Vermelhas das amoras dos caminhos.</p><br />
<p>Eu brincava a correr atrás de ti;<br /><br />
Uma sombra perseguindo um clarão...<br /><br />
E no seio da noite, os nossos passos<br /><br />
Pareciam encher de sol a ’scuridão!</p><br />
<p>Olhando tanta estrela, tu dizias:<br /><br />
Olha a chuva de prata que nos cobre!<br /><br />
Depois, numa expressão amarga e branda<br /><br />
Recitavas, chorando, António Nobre!...</p><br />
<p>Eu tinha medo, um medo atroz infindo<br /><br />
De passar pelos campos a tal hora,<br /><br />
Mas, olhando os teus olhos cintilantes,<br /><br />
A noite semelhava uma aurora!</p><br />
<p>E já passaram esses áureos tempos,<br /><br />
E já fugiu a nossa mocidade!...<br /><br />
Mas quando penso nesses dias lindos,<br /><br />
Que tortura, minh’alma, e que saudade!</p><br />
<p>In “Trocando olhares” 1915-1917<br /><br />
Editora Martin Claret</p><br />
<p>Florbela Espancaflorbelaespanca.thumbnail
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Espelho
Julho 22, 2014

Às vezes, queria ter apenas uma palavra

para te ver, tão leve como a flor, ou

tão doce como o amor; queria saboreá-la,

como se fosse um torrão – ou dizê-la

.

como fácil suspiro, sem dor nem tristeza.

De outras vezes, queria envolvê-la numa

espuma de frases, escondê-la sob a névoa

do verso, ou atirá-la ao vento que a

.

confundisse com a mais branca nuvem.

Mas essa palavra só existe porque diz

o que és, quando a digo; e se a não

.

digo, também o silêncio se transforma

em palavra, para que o espelho do poema

se abra, e nele o teu rosto me sorria.

Momentos de cor

Nuno  Júdice

Sinto
Julho 14, 2014

Sinto que podia escrever o mar sobre os nossos passos.

Sinto (desde o céu) este aguaceiro

que descreve um poema nos nossos corpos molhados.

Talvez a calçada suba demais para nós

e o tempo não espere pelos nossos dias felizes.

A tua mão agarra com força a minha e não deixa

que este plano escorregadio me puxe para longe.

Estamos sós.

Estamos juntos. As nossa almas tocam-se no princípio e no fim,

onde começa e nunca mais acaba este amor

que nasceu antes de ti e de mim.

Sinto que tocamos o horizonte no limiar de um abraço,

no sabor de um beijo.

Trazemos os bolsos cheios de vontade de percorrer

as ruas virgens de sonho e de ódio.

Somos a praia num dia de verão – a minha luz alimenta o teu corpo

e o meu mar arrasta a tua areia para os confins do meu coração,

até onde ninguém havia antes chegado,

até onde eu acabo e tu começas – dentro de mim, dentro de nós.

Sinto que estás em todos os cantos do meu corpo.

Sinto-me estremecer no teu calor.

Sinto o nosso amor no meu coração.

borboleta-amor

Beatriz  Reina

Esta gente cujo rosto
Julho 8, 2014

sophia 2

Esta gente cujo rosto
Às vezes luminoso
E outras vezes tosco

Ora me lembra escravos
Ora me lembra reis

Faz renascer meu gosto
De luta e de combate
Contra o abutre e a cobra
O porco e o milhafre

Pois a gente que tem
O rosto desenhado
Por paciência e fome
É a gente em quem
Um país ocupado
Escreve o seu nome

E em frente desta gente
Ignorada e pisada
Como a pedra do chão
E mais do que a pedra
Humilhada e calcada

Meu canto se renova
E recomeço a busca
De um país liberto
De uma vida limpa
E de um tempo justo

Sophia de Mello Breyner Andresen

Quatro estações
Julho 2, 2014

Há uma impressão de cinza nas mãos

que aperto, com a força do vento, como

se não tivesse passado a sombra que as

anima, levando com ela o sonho em que a vi.

.

E sinto ainda um fulgor de lume nos

meus dedos, como se tivesse voltado

a quente ansiedade de outrora, e a sede

em que o desejo encontrava a sua fonte.

.

Um corpo que passou por mim, e me

esgotou a alma, perpassa na inspiração

em que a vida reencontra um rumo de campo:

.

com a melancolia do outono, a corrupção

do inverno, a maré florida da primavera,

e o êxtase dos frutos na colheita do verão.

maos1dt6

Nuno  Júdice