Archive for Outubro, 2014

De que vale ter voz…
Outubro 30, 2014

De que vale ter voz
se só quando não falo é que me entendem?
De que vale acordar
se o que vivo é menos do que o que sonhei?

bola de sabão

Mia Couto

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Doce contentamento já passado
Outubro 24, 2014

Doce contentamento já passado,

em que todo o meu bem só consistia,

quem vos levou de minha companhia,

e me deixou de vós tão apartado?

.

Quem cuidou que se visse neste estado

naquelas breves horas de alegria,

quando minha ventura consentia

que de enganos vivesse meu cuidado?

.

Fortuna minha foi cruel e dura

aquela que causou meu perdimento,

com a qual ninguém pode ter cautela.

.

Nem se engane nenhuma criatura;

que não pode nenhum impedimento

fugir o que lhe ordena sua estrela.

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Luís de Camões

Pelo Sonho é que vamos
Outubro 18, 2014

Pelo Sonho é que vamos,
comovidos e mudos.
Chegamos? Não chegamos?
Haja ou não haja frutos,
pelo Sonho é que vamos.

Basta a fé no que temos.
Basta a esperança naquilo
que talvez não teremos.
Basta que a alma demos,
com a mesma alegria,
ao que desconhecemos
e ao que é do dia-a-dia.

Chegamos? Não chegamos?

- Partimos. Vamos. Somos.

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Sebastião da Gama

Palavras
Outubro 12, 2014

Diz-me,

diz-me que me ouves,

que aí, no silêncio dos astros que não

têm nome,

as minhas palavras chegam como um

cântico,

como um eco de outras idades,

diz-me sem medo

que me vês mais perto dos candelabros,

nos salões de incenso aonde regressei

para ver-te,

para dizer-te como isto dói,

como os anjos me abandonam sempre

que chega o outono.

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José  Agostinho  Baptista

Ausência
Outubro 6, 2014

Eu haverei de erguer a vasta vida
que ainda é o teu espelho:
cada manhã hei-de reconstruí-la.
Desde que te afastaste,
quantos lugares se tornaram vãos
e sem sentido, iguais
a luzes acesas de dia.
Tardes que te abrigaram a imagem,
música em que sempre me esperavas,
palavras desse tempo,
terei de as destruir com as minhas mãos.
Em que ribanceira esconderei a alma
para que não veja a tua ausência,
que como um sol terrível, sem ocaso,
brilha definitiva e sem piedade?
A tua ausência cerca-me
como a corda à garganta.
O mar ao que se afunda.

mar bravo

Jorge Luis Borges, “Fervor de Buenos Aires” (1923) (tradução de Fernando Pinto do Amaral)