Archive for Novembro, 2014

Já?
Novembro 30, 2014

já tentaste praticar o bem

fazendo mal?

já tentaste praticar o mal

fazendo bem?

já tentaste praticar o bem

fazendo bem?

já tentaste praticar o mal

fazendo mal?

já tentaste praticar o bem

não fazendo nada?

já tentaste praticar o mal

fazendo tudo?

já tentaste praticar tudo

não fazendo nada?

e o contrário, já tentaste?

já?

seja qual for a tua resposta,

não sei que te diga.

man_down_the_road_by_goldenso

Alberto Pimenta

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Balada dos Aflitos
Novembro 24, 2014

Irmãos humanos tão desamparados

a luz que nos guiava já não guia

somos pessoas – dizeis – e não mercados

este por certo não é tempo de poesia

gostaria de vos dar outros recados

com pão e vinho e menos mais-valia.

.

Irmãos meus que passais um mau bocado

e não tendes sequer a fantasia

de sonhar outro tempo e outro lado

como António digo adeus a Alexandria

desconcerto do mundo tão mudado

tão diferente daquilo que se queria.

.

Talvez Deus esteja a ser crucificado

neste reino onde tudo se avalia

irmãos meus sem valor acrescentado

rogai por nós Senhora da Agonia

irmãos meus a quem tudo é recusado

talvez o poema traga um novo dia.

.

Rogai por nós Senhora dos Aflitos

em cada dia em terra naufragados

mão invisível nos tem aqui proscritos

em nós mesmos perdidos e cercados

venham por nós os versos nunca escritos

irmãos humanos que não sois mercados.

gold-falls-leonid-afremov

Manuel  Alegre

Um adeus português
Novembro 18, 2014

Nos teus olhos altamente perigosos

vigora ainda o mais rigoroso amor

a luz de ombros puros e a sombra

de uma angústia já purificada

.

Não tu não podias ficar presa comigo

à roda em que apodreço

apodrecemos

a esta pata ensanguentada que vacila

quase medita

e avança mugindo pelo túnel

de uma velha dor

.

Não podias ficar nesta cadeira

onde passo o dia burocrático

o dia-a-dia da miséria

que sobe aos olhos vem às mãos

aos sorrisos

ao amor mal soletrado

estupidez ao desespero sem boca

ao medo perfilado

à alegria sonâmbula à vírgula maníaca

do modo funcionário de viver

.

Não podias ficar nesta cama comigo

em trânsito mortal até ao dia sórdido

canino

policial

até ao dia que não vem da promessa

puríssima da madrugada

mas da miséria de uma noite gerada

por um dia igual

.

Não podias ficar presa comigo

à pequena dor que cada um de nós

traz docemente pela mão

a esta pequena dor à portuguesa

tão mansa quase vegetal

.

Não tu não mereces esta cidade não mereces

esta roda de náusea em que giramos

até à idiotia

esta pequena morte

e o seu minucioso e porco ritual

esta nossa razão absurda de ser

.

Não tu és da cidade aventureira

da cidade onde o amor encontra as suas ruas

e o cemitério ardente

da sua morte

tu és da cidade onde vives por um fio

de puro acaso

onde morres ou vives não de asfixia

mas às mãos de uma aventura de um comércio puro

sem a moeda falsa do bem e do mal

*

Nesta curva tão terna e lancinante

que vai ser que já é o teu desaparecimento

digo-te adeus

e como um adolescente

tropeço de ternura

por ti

de costas

Alexandre O’Neill

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Novembro 11, 2014

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Não sejas o de hoje. 
Não suspires por ontens…
não queiras ser o de amanhã.
Faze-te sem limites no tempo.
Vê a tua vida em todas as origens.
Em todas as existências.
Em todas as mortes.
E sabes que serás assim para sempre.
Não queiras marcar a tua passagem.
Ela prossegue:
é a passagem que se continua.
É a tua eternidade.
És tu.

. Cecília Meireles    em     Cânticos II .

Quem a tem…
Novembro 5, 2014

Não hei-de morrer sem saber

qual a cor da liberdade.

.

Eu não posso senão ser

desta terra em que nasci.

Embora ao mundo pertença

e sempre a verdade vença,

qual será ser livre aqui,

não hei-de morrer sem saber.

.

Trocaram tudo em maldade,

é quase um crime viver.

Mas, embora escondam tudo

e me queiram cego e mudo,

não hei-de morrer sem saber

qual a cor da liberdade.

MINOLTA DIGITAL CAMERA

Jorge de Sena