Archive for Dezembro, 2015

2015 in review
Dezembro 30, 2015

The WordPress.com stats helper monkeys prepared a 2015 annual report for this blog.

Here’s an excerpt:

A San Francisco cable car holds 60 people. This blog was viewed about 1,900 times in 2015. If it were a cable car, it would take about 32 trips to carry that many people.

Click here to see the complete report.

Toda a minh’alma
Dezembro 26, 2015

Toda a minh’Alma se prende
naquella forma de graça;
mas não é na forma viva
mas sim na Linha que passa.
.
Toda a minh’Alma se prende,
bate as asas, esvoaça…
E é como a sombra distante
d’aquella Linha que passa.
.
A vida é só o Espaço
que vai da própria Linha
à sombra d’ella num traço.
.
Quando a Morte for vizinha,
fundidas no mesmo Espaço
será tudo a mesma Linha.

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Violante de Cysneiros (1915)

Arte poética
Dezembro 20, 2015

Faço um poema às vezes com a displicência
de um risco sem figura,
como a preguiça de um gesto
sem destino,
às vezes com o adormecimento
no mormaço,
como o tremor de uma lágrima
de espanto;
faço poema às vezes como a faina
de colher flores, de passar os dedos
na água, de voltar-me
por não ver nada mais do que sonhava;
faço poema às vezes como a máquina
regista, como o dedo segue
a linha da leitura,
como a força
invisível de virar
a página de um livro casual;
mas ás vezes faço poema como erguendo
um punhal contra a rosa, ou contra mim,
como quem morre e resiste
e quer morrer assim.
Faço poema às vezes.
.
Faço poema sempre como vivo.

regato 2

Walmir Ayala

Aos meus companheiros de Angola
Dezembro 14, 2015

Éramos jovens.
Sonhámos um futuro novo.
Estávamos longe de pensar
que o futuro é velho.
Às vezes está em crise
como um bêbado
à procura do seu centro de gravidade.
.
Éramos jovens.
Tínhamos a vida inteira à nossa frente.
Namorámos a manhã
com a alma virada para o mar.
Cultivámos a paixão, o amor,
os beijos, a viagem.
Lutámos contra a opressão,
contra toda e qualquer opressão.
Éramos jovens.
Tínhamos sede de justiça e de luz.
Sonhámos um país diferente,
como um poema cintilante.
Descobrimos que os países ignoram
a gramática da poesia.
Os países são coisas banais, primitivas,
habitadas pelo mal
e o mal mistura-se com o bem.
Líquidos miscíveis,
tudo é mais turvo e mais difícil.
.
Hoje alguns de nós querem reviver tudo,
refundar o passado,
investigar porque falhámos.
Ainda bem que falhámos.
Dormimos tranquilos e sãos.
A nossa alma está limpa e sábia.
.
Éramos jovens
e sonhámos um futuro novo.
Estávamos longe de pensar
que o futuro é velho
e recebe visitas ao fim da tarde.
alegria

António Costa Silva

Tu vinhas
Dezembro 8, 2015

Não me fizeste sofrer
mas esperar.

Naquelas horas
emaranhadas, cheias
de serpentes,
quando
a alma me caía e eu me afogava,
tu vinhas-te aproximando,
tu vinhas nua e arranhada,
tu chegavas ensanguentada ao meu leito,
noiva minha,
e então
caminhávamos toda a noite dormindo
e, quando acordávamos,
estavas intacta e nova,
como se o vento grave dos sonhos
acendesse de novo
o fogo da tua cabeleira
e em trigo e prata submergisse
teu corpo até torná-lo deslumbrante.

Eu não sofri, meu amor,
esperava-te apenas.
Tu precisavas de mudar de coração
e de olhar
depois de tocares a profunda
zona do mar que meu peito te entregou.
Precisavas de sair da água
pura como uma gota erguida
por uma onda nocturna.

Noiva minha, tu precisaste
de morrer e de nascer, eu esperava-te.
Não sofri a procurar-te,
sabia que virias,
mas outra, com o que adoro
da mulher que não adorava,
com teus olhos, tuas mãos e tua boca,
mas com outro coração,
que amanheceu a meu lado
como se sempre tivesse estado ali
para continuar comigo para sempre.

mulher-caminhar
Pablo Neruda, em “Os Versos do Capitão“.

Tenho tanto sentimento
Dezembro 2, 2015

Tenho tanto sentimento
que é frequente persuadir-me
de que sou sentimental,
mas reconheço, ao medir-me,
que tudo isso é pensamento,
que não senti afinal.

Temos, todos que vivemos,
uma vida que é vivida
e outra vida que é pensada,
e a única vida que temos
é essa que é dividida
entre a verdadeira e a errada.

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