Archive for Janeiro, 2016

A uma desconhecida
Janeiro 26, 2016

Encontrei-te por acaso no meio do ruído,

calma e refulgente.

Deixaste-me um retrato, depois desapareceste,

ficou apenas um rasto de sal.

Em troca, espero o teu regresso da vertigem.

.

Todos os dias pressinto a tua fotografia

confidente, longínqua,

isolado por entre a multidão.

E sei, desde o início, que só amarei

quando, por acaso no meio do ruído,

alguém semelhante a ti a reclame.

amores-impossiveis-3162451-1238

Joel  Henriques

Se a desgraça chegar
Janeiro 20, 2016

Um homem só é homem se persiste,
se luta, se contesta, se ultrapassa
a angústia agreste do minuto triste
que traz a solidão e a desgraça.
.
Eu que conheço tudo quanto existe
e por tudo passei (e a gente passa),
acredito naquele que conquiste
no sofrimento a força de uma raça.
.
A minha raça. Raça destroçada
mas corajosa, que tem tudo e nada,
o mar e a areia dos desertos.
.
Homem, aconteça o que aconteça,
se a desgraça chegar, ergue a cabeça
e vai em frente, de olhos bem abertos.

homem-tristeza

Sidónio Muralha

Inventário
Janeiro 13, 2016

De que sedas se fizeram os teus dedos,
de que marfim as tuas coxas lisas,
de que alturas chegou ao teu andar
a graça de camurça com que pisas.

De que amoras maduras se espremeu
o gosto acidulado do teu seio,
de que Índias o bambu da tua cinta,
o oiro dos teus olhos, donde veio.

A que balanço de onda vais buscar
a linha serpentina dos quadris,
onde nasce a frescura dessa fonte
que sai da tua boca quando ris.

de que bosques marinhos se soltou
a folha de coral das tuas portas,
que perfume te anuncia quando vens
cercar-me de desejo a horas mortas.

rosto

JOSÉ SARAMAGO, em  OS POEMAS POSSÍVEIS ( Editorial Caminho, 6ª ed., 1997)

Que culpa terão as ondas?
Janeiro 6, 2016

… Que culpa terão as ondas
dos movimentos que façam?
– São os ventos que as impelem
e sulcos profundos traçam.
… Aos ventos quem lhes ordena
que rasguem rugas no mar?
– São as nuvens inquietas
que os não deixam sossegar.
… E as nuvens, almas de névoa,
porque não param, coitadas?
– É que as asas das gaivotas
as trazem desafiadas.
… Mas as asas das gaivotas,
o cansaço há-de detê-las!
– Juraram buscar descanso
nas pupilas das estrelas.
E como as estrelas estão altas
e não tombam nem se alcançam,
as asas das pobrezinhas
baldamente se cansam…
baldamente se cansam,
baldamente palpitam!…
As nuvens, por fatalismo,
logo com elas se agitam;
os impulsos que elas dão
arrastam as ventanias;
as vagas arfam nos mares
em macabras fantasias…
.
… Assim as almas inquietas…
Prisioneiras de ansiedades,
mal que se erguem da terra,
naufragam nas tempestades.

espuma

Reinaldo Ferreira