Archive for Fevereiro, 2016

Balada da Neve
Fevereiro 28, 2016

Augusto Gil
Batem leve, levemente,
como quem chama por mim.
Será chuva? Será gente?
Gente não é, certamente
e a chuva não bate assim.

É talvez a ventania:
mas há pouco, há poucochinho,
nem uma agulha bulia
na quieta melancolia
dos pinheiros do caminho…

Quem bate, assim, levemente,
com tão estranha leveza,
que mal se ouve, mal se sente?
Não é chuva, nem é gente,
nem é vento com certeza.

Fui ver. A neve caía
do azul cinzento do céu,
branca e leve, branca e fria,
há quanto tempo a não via…
…e que saudades, Deus meu!
.
Olho-a através da vidraça.
Pôs tudo da cor do linho.
Passa gente e, quando passa,
os passos imprime e traça
na brancura do caminho…

Fico olhando esses sinais
da pobre gente que avança,
e noto, por entre os mais,
os traços miniaturais
duns pezitos de criança…

E descalcinhos, doridos…
a neve deixa inda vê-los,
primeiro, bem definidos,
depois, em sulcos compridos,
porque não podia erguê-los!…

Que quem já é pecador
sofra tormentos, enfim!
Mas as crianças, Senhor,
porque lhes dais tanta dor?!…
Porque padecem assim?!…

E uma infinita tristeza,
uma funda turbação
entra em mim, fica em mim presa.
Cai neve na Natureza
e cai no meu coração.

Augusto Gil

Sei onde o trigo
Fevereiro 21, 2016

Sei onde o trigo ilumina a boca.
Invoco esta razão para me cobrir
com o mais frágil manto do ar.
.
O sono é assim, permite ao corpo
este abandono, ser no seio da terra
essa alegria só prometida à água.
.
Digo que estive aqui, e vou agora
a caminho de outro sol mais branco.

estátua

Eugénio de Andrade

Perfilados de medo
Fevereiro 15, 2016

Perfilados de medo, agradecemos
o medo que nos salva da loucura.
Decisão e coragem valem menos,
e vida sem viver é mais segura.
.
Aventureiros já sem aventura,
perfilados de medo, combatemos
irónicos fantasmas à procura
do que não somos, do que não seremos.
.
Perfilados de medo, sem mais voz,
o coração nos dentes oprimido,
os loucos, os fantasmas somos nós.
.
Rebanho pelo medo perseguido,
já vivemos tão juntos e tão sós
que da vida perdemos o sentido.

medo-100308

Alexandre O’Neill

As tuas mãos
Fevereiro 8, 2016

As tuas mãos terminam em segredo.
Os teus olhos são negros e macios
Cristo na cruz os teus seios (?) esguios
e o teu perfil princesas no degredo…

Entre buxos e ao pé de bancos frios
nas entrevistas alamedas, quedo
O vendo põe o seu arrastado medo
Saudoso o longes velas de navios.

Mas quando o mar subir na praia e for
arrasar os castelos que na areia
as crianças deixaram, meu amor,

será o haver cais num mar distante…
Pobre do rei pai das princesas feias
no seu castelo à rosa do Levante !

gaivotas 3

Fernando Pessoa, em ‘Cancioneiro’

Conformismo
Fevereiro 1, 2016

Pendurado do resto de um cigarro,
– meio aceso, meio ardido –
desfaço-me na cinza dos dias que passam,
sem que eu passe além de mim,
desenhando saudades na penumbra da memória.
.
Saudades de um futuro que o fumo leva
e que dissolvo neste whisky,
velho de mágoas destiladas
nas altas terras das dores silenciadas.
.
Sentado no silêncio frio da pedra solitária,
rumino o lume brando que me cerca,
enquanto olho o mundo
pelas vidraças da alma embaciada,
e, acomodado, reflicto:
– “as coisas são o que são!”.

© Matt Wisniewski

Vítor Bento