Archive for Março, 2016

Pequeno ensaio sobre coisificação
Março 22, 2016

E tu que és mulher de corpo inteiro,

quiçá fisicamente apelativa,

como pede e cobiça, sobranceiro,

quem pretende explorar-te, em carne viva

(condição do anúncio que sugere,

para quem se quiser candidatar,

que seja bem mais coisa que mulher,

um objecto pronto a funcionar),

tu que sendo quem és, ao fim e ao cabo,

se queres que tratem com decoro,

pois não vendes a alma ao diabo

nem toleras abuso ou desaforo,

contesta, replica, repudia

quem assim te abocanha e avalia.

meu príncipe

Domingos da Mota

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O mais é nada
Março 16, 2016

Navega, descobre tesouros, mas não os tires do fundo do mar, o lugar deles é lá.
Admira a lua, sonha com ela, mas não queiras trazê-la para a terra.
Goza o sol, deixa-te acariciar por ele, mas lembra-te que o calor dele é para todos.
Sonha com as estrelas, sonha apenas, elas só podem brilhar no céu.
Não tentes deter o vento, ele precisa de correr por toda a  parte, ele tem pressa de chegar sabe-se lá onde.
Não segures a chuva, ela quer cair e molhar muitos rostos, não pode molhar só o teu.
As lágrimas? Não as seques, elas precisam correr na minha, na tua, em todas as faces.
O sorriso! Esse tu deves segurar, não deixes-o ir embora, agarra-o!
Quem tu amas? Guarda dentro de um guarda- jóias, tranca, perde a chave!
Quem tu amas é a maior jóia que tu possuis, a mais valiosa.

Não importa se a estação do ano muda, se o século vira e se o milénio é outro, se a idade aumenta;

conserva a vontade de viver, não se chega a nenhuma parte sem ela.
Abre todas as janelas que encontrares e as portas também.
Persegue um sonho, mas não o deixes viver sozinho.
Alimenta a tua alma com amor, cura as tuas feridas com carinho.
Descobre-te todos os dias, deixa-te levar pelas vontades, mas não enlouqueças por elas.

Procura, procura sempre o fim de uma história, seja ela qual for.
Dá um sorriso a quem esqueceu como se faz isso.
Acelera os teus pensamentos, mas não permita que eles te consumam.
Olha para o lado, alguém precisa de ti.
Abastece o teu coração de fé, não a percas nunca.
Mergulha de cabeça nos teus desejos e satisfá-los.
Agoniza de dor por um amigo, só sai dessa agonia se conseguires tirá-lo também.
Procura os teus caminhos, mas não magoes ninguém nessa procura.
Arrepende-te, volta atrás, pede perdão!
Não te acostumes com o que não te faz feliz, revolta-te quando julgares necessário.
Alaga o teu coração de esperanças, mas não deixes que ele se afogue nelas.
Se achares que precisas voltar, volta!
Se perceberes que precisas de seguir, segue!
Se estiver tudo errado, começa novamente.
Se estiver tudo certo, continua.
Se sentires saudades, mata-as.
Se perderes um amor, não te percas!
Se o  achares, segura-o!
“Circunda-te de rosas, ama, bebe e cala. O mais é nada.”

rosas brancas

Fernando Pessoa

Deixem passar
Março 10, 2016

 

Deixem passar quem vai na sua estrada.
Deixem passar
quem vai cheio de noite e de luar.
Deixem passar e não lhe digam nada.

Deixem, que vai apenas
beber água de Sonho a qualquer fonte;
ou colher açucenas
a um jardim que ele lá sabe, ali defronte.

Vem da terra de todos, onde mora
e onde volta depois de amanhecer.
Deixem-no pois passar, agora

que vai cheio de noite e solidão.
Que vai ser
uma estrela no chão.

(1932) Miguel Torga

Foto de Páginas Em Poesia.

O mar dos meus olhos
Março 9, 2016


Há mulheres que trazem o mar nos olhos
não pela cor
mas pela vastidão da alma.
E trazem a poesia nos dedos e nos sorrisos,
ficam para além do tempo
como se a maré nunca as levasse
da praia onde foram felizes.

 

Há mulheres que trazem o mar nos olhos
pela grandeza da imensidão da alma
pelo infinito modo como abarcam

as coisas e os homens…
Há mulheres que são maré em noites de tardes…
e calma.


Sophia de Mello Breyner Andersen    in    Obra Poética

Sexta canção da vida
Março 4, 2016

Vou:
disperso nas horas,
incerto nos passos.
.
Rezo:
Vida, havias de trazer horas brutais,
horas abertas,
rasgadas por minhas mãos ansiosas
de lúcidos temporais!
.
Penso:
se as não rasgar por minhas mãos,
a Vida não as dará jamais.

mãos

Manuel da Fonseca