Archive for Abril, 2016

É preciso avisar toda a gente
Abril 26, 2016

É preciso avisar toda a gente,
dar notícia, informar, prevenir
que, por cada flor estrangulada,
há milhões de sementes a florir.
.
É preciso avisar toda a gente,
segredar a palavra e a senha
engrossando a verdade corrente
duma força que nada a detenha.
.
É preciso avisar toda a gente
que há fogo no meio da floresta
e que os mortos apontam em frente
o caminho da esperança que resta.
.
É preciso avisar toda a gente,
transmitindo esta morse de dores.
É preciso, imperioso e urgente
mais flores, mais flores, mais flores.

labaredas

João Apolinário

Destino
Abril 19, 2016

Acordo como os pássaros cativos,
com a ária da vida nos ouvidos.
Acordo sem amarras nos sentidos,
fiéis à sempiterna liberdade…
Nada pôde vencer a lealdade
que juraram à deusa aventureira.
Nem as grades do sono, nem a severidade
da noite carcereira.

Acordo e recomeço
o canto interrompido:
o desvairado canto
da ira irrequieta…
– O canto que o poeta
se obrigou a cantar
antes de ter nascido,
antes de a sua angústia começar.


Miguel Torga
Foto de Páginas Em Poesia.

III
Abril 13, 2016

Saio de casa
e deito-me no chão,
inocente,
liberto do peso das palavras
e da Primavera.
.
Encontrei enfim a porta secreta
que liga o sonho dos vivos
ao que há de mais belo na morte
– esta embriaguez com boca
do hálito da terra.
.
Morte verdadeira, para quê?

dreaming_myself_away_by_bellatina

José Gomes Ferreira

O buraco da agulha
Abril 7, 2016

Vou de camelo pelo buraco de uma agulha
vou de camelo e não encontro o reino.
.
A porta é estreita mas os ricos
estão a comprar passagem e estão a entrar.
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Vou de camelo pela oferta e a procura
e há quem pense que o céu também tem preço.
.
Tens de vir outra vez para dizer
que não pode servir-se a dois senhores.
.
Vou de camelo pela porta estreita
vou de camelo e não consigo entrar.
.
Tens de vir outra vez que os fariseus
não nos deixam passar não nos deixam passar.

Manuel Alegre

Manuel Alegre

Abdicação
Abril 1, 2016

Toma-me, ó noite eterna, nos teus braços
e chama-me teu filho. Eu sou um rei
que voluntariamente abandonei
o meu trono de sonhos e cansaços.
.
Minha espada, pesada a braços lassos,
em mãos viris e calmas entreguei;
e meu ceptro e coroa – eu os deixei
na antecâmara, feitos em pedaços.
.
Minha cota de malha, tão inútil,
minhas esporas de um tinir tão fútil,
deixei-os pela fria escadaria.
.
Despi a realeza, corpo e alma,
e regressei à noite antiga e calma
como a paisagem ao morrer do dia.

alone

Fernando Pessoa