Archive for Maio, 2016

Quási
Maio 28, 2016

Um pouco mais de sol – eu era brasa,
um pouco mais de azul – eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe d’asa…
Se ao menos eu permanecesse àquém…

 

Assombro ou paz? Em vão… Tudo esvaído
num baixo mar enganador de espuma;
e o grande sonho despertado em bruma,
o grande sonho – ó dôr! – quási vivido…

Quási o amor, quási o triunfo e a chama,
quási o princípio e o fim – quási a expansão…
Mas na minh’alma tudo se derrama…
Entanto nada foi só ilusão!

De tudo houve um começo… e tudo errou…
– Ai a dôr de ser-quási, dor sem fim… –
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
asa que se elançou mas não voou…

Momentos d’alma que desbaratei…
Templos aonde nunca pus um altar…
Rios que perdi sem os levar ao mar…
Ânsias que foram mas que não fixei…

Se me vagueio, encontro só indicios…
Ogivas para o sol – vejo-as cerradas;
e mãos de herói, sem fé, acobardadas,
puseram grades sôbre os precipícios…

Num ímpeto difuso de quebranto,
tudo encetei e nada possuí…
Hoje, de mim, só resta o desencanto
das coisas que beijei mas não vivi…

. . . . . . . . . . . . . . .
. . . . . . . . . . . . . . .

Um pouco mais de sol – e fôra brasa,
um pouco mais de azul – e fôra além.
Para atingir, faltou-me um golpe de aza…
Se ao menos eu permanecesse àquem…

folhas de roseira

 

 

Mário de Sá-Carneiro     em     ‘Dispersão’

Colhe o dia porque és ele
Maio 22, 2016

Uns, com os olhos postos no passado,
veem o que não veem: outros, fitos
os mesmos olhos no futuro, veem
o que não pode ver-se.

Por que tão longe ir pôr o que está perto
a segurança nossa? Este é o dia,
esta é a hora, este o momento, isto
é quem somos, e é tudo.

Perene flui a interminável hora
que nos confessa nulos. No mesmo hausto
em que vivemos, morreremos.
Colhe o dia, porque és ele.

natureza_rio

Ricardo Reis  (heterónimo de Fernando Pessoa)

Caminho sem regresso
Maio 16, 2016

Meus, perdidos, horizontes de lonjura e água,

bebedouro de sonhos, na antemanhã,

onde estais?

.

Tenho sede.

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Luísa  Dacosta

Bemol
Maio 9, 2016

acordei bemol
tudo estava sustenido
sol fazia
só não fazia sentido

triste

Paulo Leminski

Vasco da Gama
Maio 3, 2016

Somos nós que fazemos o destino.
Chegar à Índia ou não
é um último desígnio da vontade.
Os fados a favor
e a desfavor
são argumentos da posteridade.
.
O próprio génio pode estar ausente
da façanha.
Basta que nos momentos de terror,
persistente,
o ânimo enfrente
a fúria de qualquer Adamastor.
.
O renome é o salário do triunfo.
O que é preciso, pois, é triunfar.
Nunca meia viagem consentida!
Nunca meia medida
do vinho que nos há-de embriagar!

tempestade

Manuel Alegre