Archive for Julho, 2016

Adão e Eva
Julho 28, 2016

Adão e Eva
olhámo-nos um dia,
e cada um de nós sonhou que achara
o par que a alma e a cara lhe pedia.

– E cada um de nós sonhou que o achara…

E entre nós dois
se deu, depois, o caso da maçã e da serpente,
… se deu, e se dará continuamente:

Na palma da tua mão,
me ofertaste, e eu mordi, o fruto do pecado.

– Meu nome é Adão…

E em que furor sagrado
os nossos corpos nus e desejosos
como serpentes brancas se enroscaram,
tentando ser um só!

Ó beijos angustiados e raivosos
que as nossas pobres bocas se atiraram
sobre um leito de terra, cinza e pó!

Ó abraços que os braços apertaram,
dedos que se misturaram!

Ó ânsia que sofreste, ó ânsia que sofri,
sede que nada mata, ânsia sem fim!
– tu de entrar em mim,
eu de entrar em ti.

Assim toda te deste,
e assim todo me dei:

Sobre o teu longo corpo agonizante,
meu inferno celeste,
cem vezes morri, prostrado…
Cem vezes ressuscitei
para uma dor mais vibrante
e um prazer mais torturado.

E enquanto as nossas bocas se esmagavam,
e as doces curvas do teu corpo se ajustavam
às linhas fortes do meu,
os nossos olhos muito perto, imensos,
no desespero desse abraço mudo,
confessaram-se tudo!
… Enquanto nós pairávamos, suspensos
entre a terra e o céu.

Assim as almas se entregaram,
como os corpos se tinham entregado,
assim duas metades se amoldaram
ante as barbas, que tremeram,
do velho Pai desprezado!

E assim Eva e Adão se conheceram:

Tu conheceste a força dos meus pulsos,
a miséria do meu ser,
os recantos da minha humanidade,
a grandeza do meu amor cruel,
os veios de oiro que o meu barro trouxe…

Eu, os teus nervos convulsos,
o teu poder,
a tua fragilidade,
os sinais da tua pele,
o gosto do teu sangue doce…

Depois…

Depois o quê, amor? Depois, mais nada,
– que Jeová não sabe perdoar!

O Arcanjo entre nós dois abrira a longa espada…

Continuamos a ser dois,
e nunca nos pudemos penetrar!

abraço 2

José Régio

Se eu pudesse
Julho 22, 2016

Se eu pudesse trincar a terra toda
e sentir-lhe um paladar
seria mais feliz um momento
mas eu nem sempre quero ser feliz.

E preciso ser de vez em quando infeliz
para poder ser natural…
Nem tudo são dias de sol
e a chuva, quando falta muito, pede-se.
Por isso tomo a infelicidade com a felicidade
naturalmente, como quem não estranha
que haja montanhas e planícies
e que haja rochedos e erva…

O que é preciso é ser-se natural e calmo
na felicidade ou infelicidade.
Sentir como quem olha.
Pensar como quem anda.
E quando se vai morrer, lembrar-se que o dia morre,
e que o poente é belo e é bela a noite que fica.
Assim é e assim seja…

arame

Alberto Caeiro

até amanhã ao sol
Julho 16, 2016

 

estou cansado
de tantas lutas
tantos anos

dou-me porque sim

porque sou
esta cabeça lucidamente
tonta de tanto sonho

continuo a não ser daqui
sem saber de onde sou

mas continuo
não precisam de contar
comigo eu conto

pararei quando
chegar o dia de parar
de vez de vez

até amanhã ao sol

sol 1

A. H. Cravo

Para os lábios que o homem faz
Julho 10, 2016

Para os lábios
que o homem faz
que atraem beijos
ao redor do mundo
ficou na nossa memória
em qualquer parte a qualquer hora
um pedaço
de pão

Promessa
que se cumpre
que alimenta
o mundo

Olhos
a exigir
uma floresta

boca

Mário Cesariny, em “Pena Capital”

Quando eu morrer
Julho 4, 2016

Quando eu morrer quero as tuas mãos nos meus olhos:
quero a luz e o trigo das tuas mãos amadas
passando uma vez mais sobre mim sua frescura:
sentir a suavidade que mudou o meu destino.
.
Quero que vivas enquanto eu, adormecido, te espero,
quero que teus ouvidos sigam ouvindo o vento,
que sintas o perfume do mar que amamos juntos
e que sigas pisando a areia que pisamos.
.
Quero que o que amo continue vivo
e a ti amei e cantei sobre todas as coisas,
por isso segue tu florescendo, florida,

para que alcances tudo o que meu amor te ordena,
para que passeie minha sombra por teus cabelos,
para que assim conheçam a razão do meu canto.

Neruda
Pablo Neruda    em  Cem Sonetos de Amor