Archive for Outubro, 2016

Não te amo
Outubro 28, 2016

Não te amo, quero-te: o amor vem da alma.
E eu na alma – tenho a calma,
a calma do jazigo.
Ai, não te amo, não.
.
Não te amo, quero-te: o amor é vida.
E a vida – nem sentida
a trago eu já comigo.
Ai, não te amo, não.
.
Ai, não te amo, não; e só te quero
de um querer bruto e fero
que o sangue me devora,
não chega ao coração.
.
Não te amo. És bela; e eu não te amo, ó bela.
Quem ama a aziaga estrela
que lhe luz na má hora
da sua perdição?
.
E quero-te, e não te amo, que é forçado,
do mau feitiço azado
este indigno furor.
Mas oh, não te amo, não.
.
E infame sou, porque te quero; e tanto
que de mim tenho espanto,
de ti medo e terror…
Mas amar!… não te amo, não.

lonely-742719

Almeida Garrett

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A forma justa
Outubro 21, 2016

Sei que seria possível construir o mundo justo
As cidades poderiam ser claras e lavadas
pelo canto dos espaços e das fontes
O céu o mar e a terra estão prontos
a saciar a nossa fome do terrestre
A terra onde estamos — se ninguém atraiçoasse — proporia
cada dia a cada um a liberdade e o reino
— Na concha na flor no homem e no fruto
se nada adoecer a própria forma é justa
e no todo se integra como palavra em verso
Sei que seria possível construir a forma justa
de uma cidade humana que fosse
fiel à perfeição do universo

Por isso recomeço sem cessar a partir da página em branco
e este é meu ofício de poeta para a reconstrução do mundo

par na floresta

Sophia de Mello Breyner Andresen,   em  O Nome das Coisas”

Canção de Amor
Outubro 14, 2016

Eu cantaria mesmo que tu não existisses,
faria amor, assim, com as palavras.
Eu cantaria mesmo que tu não existisses
porque haveria de doer-me a tua ausência.
.
Por isso canto. Alegre ou triste, canto.
Como se, cantando, tocasse a tua boca,
ainda antes da tua presença.
Direi mesmo, depois da tua morte.
.
Eu cantaria mesmo que tu não existisses,
ó minha amiga, doce companheira.
Eu festejo o teu corpo como um rio,
onde, exausto, chegarei ao mar.
.
Sim, eu cantaria mesmo que tu não existisses,
porque nada eu direi sem o teu nome.
Porque nada existe além da tua vida,
da tua pele macia, dos teus olhos magoados.
.
Assim quero cantar-te, meu amor,
para além da morte, para além de tudo.

margaridas



Joaquim Pessoa   
em    ‘Canções de Ex-Cravo e Malviver’

É sempre agora
Outubro 7, 2016

O tempo não existe:
eu decreto assim.
Esses vultos esquivos
são rostos, são nomes,
são as horas felizes
(são o que foi embora?).

O tempo não existe:
tudo continua aqui,
e cresce
como uma árvore
pesada de frutos que são
máscaras, palavras, promessas,
bocas ferozes.

O tempo não existe:
tudo se resume ao instante.
O antes disso
é um rio que corre
mas não passa.
(Basta chamar:
é sempre agora).

foto12relogio

. Lya Luft    em    O Tempo é um Rio que Corre .