Archive for Dezembro, 2016

Neste curto espaço entre nós e a morte
Dezembro 27, 2016

Neste curto espaço entre nós e a morte

tão mal gastamos nossa longa despedida!

.

Tu, amor de quem não sei o nome

de onde não sei a sorte,

vais passar além deste poema que era teu

e assim de morte construída,

teus passos vão enchendo a minha vida.

.

Outro nome será flor sobre os teus lábios,

e outros dedos tocarão a límpida frescura

dos teus ombros quase d’ água

e saberão de cor o horizonte branco do teu corpo…

.

E assim iremos de olhos futuros,

tu, envelhecendo na minha ausência,

eu, a erguer-te na curva da esperança,

.

e outra mão vai desmanchar a tua trança

e hei-de beijar teu rosto onde não eras

e serás só o que há antes das horas mais tristes

e será tarde até saber que não existes.

.

Neste curto espaço entre nós e a morte,

onde me vais perdendo,

onde te vou buscando.

nosso amor se vai embora alimentando

de despedida ;

não porque morra o tempo em teus braços,

mas a vida.

Dandelion --- Image by © Dave Michaels/zefa/Corbis

Dandelion — Image by © Dave Michaels/zefa/Corbis

Victor Matos e Sá

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Cantiga para não morrer
Dezembro 21, 2016

Quando você for se embora,
moça branca como a neve,
me leve.

Se acaso você não possa
me carregar pela mão,
menina branca de neve,
me leve no coração.

Se no coração não possa
por acaso me levar,
moça de sonho e de neve,
me leve no seu lembrar.

E se aí também não possa
por tanta coisa que leve
já viva em seu pensamento,
menina branca de neve,
me leve no esquecimento.

fugaz

Ferreira Gullar   in   “Dentro da Noite Veloz

As minhas mãos
Dezembro 15, 2016

As minhas mãos procuram o teu rosto
e perdem-se no ar, desesperadas;
percorrem o caminho do desgosto
e caem a teus pés, extenuadas.
.
Os teus olhos ardentes, de sol-posto,
reacendem as brasas desmaiadas
que jazem no meu peito, encantadas,
à espera de um beijo, de um gosto.
.
Eu quero-te, amor, como tu queres
o calor dos meus lábios, se puderes
ajudar-me a vencer o desafio.
.
As minhas mãos procuram-te, esperam.
Em todos os castelos que fizeram,
tu vives como um sonho, e eu confio.
tempo 3

Diana Sá

Príncipe
Dezembro 9, 2016

Era de noite quando eu bati à tua porta
e na escuridão da tua casa tu vieste abrir
e não me conheceste.
Era de noite
são mil e umas
as noites em que bato à tua porta
e tu vens abrir
e não me reconheces
porque eu jamais bato à tua porta.
Contudo
quando eu batia à tua porta
e tu vieste abrir
os teus olhos de repente
viram-me
pela primeira vez
como sempre de cada vez é a primeira
a derradeira
instância do momento de eu surgir
e tu veres-me.
Era de noite quando eu bati à tua porta
e tu vieste abrir
e viste-me
como um náufrago sussurrando qualquer coisa
que ninguém compreendeu.
Mas era de noite
e por isso
tu soubeste que era eu
e vieste abrir-te
na escuridão da tua casa.
Ah era de noite
e de súbito tudo era apenas
lábios pálpebras intumescências
cobrindo o corpo de flutuantes volteios
de palpitações trémulas adejando pelo rosto.
Beijava os teus olhos por dentro
beijava os teus olhos pensados
beijava-te pensando
e estendia a mão sobre o meu pensamento
corria para ti
minha praia jamais alcançada
impossibilidade desejada
de apenas poder pensar-te.
São mil e uma
as noites em que não bato à tua porta
e vens abrir-me.

 

mulher-pensativa

Ana Hatherly      em    “Um Calculador de Improbabilidades”

 

Tes yeux
Dezembro 3, 2016

Tes yeux sont si profonds qu’en me penchant pour boire
j’ai vu les soleils y venir se mirer
s’y jeter à mourir tous les désespérés.
Tes yeux sont si profonds que j’y perds la mémoire.

Louis Aragon