Archive for Agosto, 2017

Há palavras que nos beijam
Agosto 26, 2017

Há palavras que nos beijam

como se tivessem boca.

Palavras de amor, de esperança,

de imenso amor, de esperança louca.

.

Palavras nuas que beijas

quando a noite perde o rosto ;

palavras que se recusam

aos muros do teu desgosto.

.

De repente coloridas

entre palavras sem cor,

esperadas, inesperadas,

como a poesia e o amor.

.

( O nome de quem se ama

letra a letra revelado

no mármore distraído

no papel abandonado.)

.

Palavras que nos transportam

aonde a noite é mais forte,

ao silêncio dos amantes

abraçados contra a morte.

now

Alexandre O’Neill

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O Vento
Agosto 15, 2017

O cipreste inclina-se em fina reverência
e as margaridas estremecem, sobressaltadas.

A grande amendoeira consente que balancem
suas largas folhas transparentes ao sol.

Misturam-se uns aos outros, rápidos e frágeis,
os longos fios da relva, lustrosos, lisos cílios verdes.

Frondes rendadas de acácias palpitam inquietantemente
com o mesmo tremor das samambaias
debruçadas nos vasos.

Fremem os bambus sem sossego,
num insistente ritmo breve.

O vento é o mesmo:
mas sua resposta é diferente, em cada folha.

Somente a árvore seca fica imóvel,
entre borboletas e pássaros.

Como a escada e as colunas de pedra,
ela pertence agora a outro reino.
Se movimento secou também, num desenho inerte.
Jaz perfeita, em sua escultura de cinza densa.

O vento que percorre o jardim
pode subir e descer por seus galhos inúmeros:

ela não responderá mais nada,
hirta e surda, naquele verde mundo sussurrante.

Cecília Meireles    em     “Mar Absoluto”

Paisagem
Agosto 9, 2017

Cega-me a distância azul sem par
o gesto bondoso da sombra sobre o banco
a presença de algum deus sobre a paisagem
o silêncio íntimo da lonjura
um poema em estado bruto
na curva da viagem.

Maria Isabel Fidalgo

Eco
Agosto 2, 2017

Hoje, perguntando onde estás, e o

que fazes, ouço as palavras tristes

da solidão que me responde, sem

nada me dizer, ao dizer-me tudo.

.

O que fazes e onde estás, pergunto

ao silêncio que me deixaste, e ouço

em mim a resposta, num eco que

vem de ti, perguntando por mim.

.

E neste espelho que entre mim e ti

a ausência constrói, outro espelho

reflecte o vazio da sua imagem, até

.

esse infinito em que a minha pergunta

te responde, para que me devolvas

o eco em que as nossas vozes se juntam.

neblina

Nuno  Júdice