Archive for Outubro, 2017

apenas um soneto
Outubro 26, 2017

chuva-casal4

 

O delicado desejo que te doura
e nos dura na pele quando anoitece
é contra a nossa vida que se tece
e é no verso que vive e se demora.

Amor que não tivémos nem nos teve
veio-nos chamar agora. De repente
fez-se névoa à palavra do presente
e luz teu corpo que toquei de leve.

Mas se arde na memória da canção
o corpo que me deste e me fugiste,
o verso é outro modo de traição

por que minto ao que nunca tu mentiste.
E enganamos assim o coração,
disfarçando de mitos o que existe.

Luís Filipe de Castro Mendes

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Com fúria e raiva
Outubro 20, 2017

Com fúria e raiva acuso o demagogo
e o seu capitalismo das palavras

Pois é preciso saber que a palavra é sagrada
que de longe muito longe um povo a trouxe
e nela pôs sua alma confiada

De longe muito longe desde o início
o homem soube de si pela palavra
e nomeou a pedra a flor a água
e tudo emergiu porque ele disse

Com fúria e raiva acuso o demagogo
que se promove à sombra da palavra
e da palavra faz poder e jogo
E transforma as palavras em moeda
como se fez com o trigo e com a terra

ruínas

   Sophia de Mello Breyner Andresen    em   “O Nome das Coisas

Herança
Outubro 12, 2017

É a minha herança: o sorriso,

o azul de uma pedra branca.

Posso juntar-lhe, ao acaso da memória,

um ramo de madressilva inclinado

para as abelhas que metodicamente fazem

do outono o lugar preferido do verão,

um melro que deixou o jardim público

para fazer ninho num poema meu,

um barco chamado Cavalinho na Chuva

à espera de reparação no molhe da Foz.

Deve haver mais alguma coisa,

não serei tão pobre, cometemos sempre

a injustiça de não referir, por pudor,

coisas mais íntimas: um verso de Safo,

traduzido por Quasimodo, a mão

que por instantes nos pousou no joelho

e logo voou para muito longe,

as cadências do coração,

teimoso em repetir que não envelheceu.

suave

Eugénio de Andrade

Poesia
Outubro 6, 2017

 

Gastei uma hora pensando um verso

que a pena não quer escrever,

no entanto ele está cá dentro

inquieto, vivo.

Ele está cá dentro

e não quer sair.

Mas a poesia deste momento

inunda minha vida inteira.

escrita

Carlos Drummond de Andrade