Archive for Novembro, 2017

Vieste como um barco carregado de vento
Novembro 28, 2017

Vieste como um barco carregado de vento, abrindo
feridas de espuma pelas ondas. Chegaste tão depressa
que nem pude aguardar-te ou prevenir-me; e só ficaste
o tempo de iludires a arquitectura fria do estaleiro

onde hoje me sentei a perguntar como foi que partiste,
se partiste,
que dentro de mim se acanham as certezas e
tu vais sempre ardendo, embora como um lume
de cera, lento e brando, que já não derrama calor.

Tenho os olhos azuis de tanto os ter lançado ao mar
o dia inteiro, como os pescadores fazem com as redes;
e não existe no mundo cegueira pior do que a minha:
o fio do horizonte começou ainda agora a oscilar,
exausto de me ver entre as mulheres que se passeiam
no cais como se transportassem no corpo o vaivém
dos barcos. Dizem-me os seus passos

que vale a pena esperar, porque as ondas acabam
sempre por quebrar-se junto das margens. Mas eu sei
que o meu mar está cercado de litorais, que é tarde
para quase tudo. Por isso, vou para casa

e aguardo os sonhos, pontuais como a noite.

mar 4

Maria do Rosário Pedreira    em    ‘O Canto do Vento nos Ciprestes’

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Redenção
Novembro 21, 2017

Vozes do mar, das árvores, do vento!

Quando, às vezes, num sonho doloroso,

me embala o vosso canto poderoso,

eu julgo igual ao meu vosso tormento…

.

Verbo crepuscular e íntimo alento

das coisas mudas, salmo misterioso,

não serás tu, queixume vaporoso,

o suspiro do mundo e o seu lamento?

.

Um espírito habita a imensidade:

uma ânsia cruel de liberdade

agita e abala as formas fugitivas.

.

E eu compreendo a vossa língua estranha

vozes do mar, da selva, da montanha…

Almas irmãs da minha, almas cativas!

agreste

Antero de Quental

 

Os meus passos
Novembro 15, 2017

Os meus passos de criança não deixavam pegadas,

a tua mão de areia e de espuma

atraía-me para o teu seio

e eu partia, numa braçada confiante

em direcção ao azul dos gritos das gaivotas,

esse azul reluzente ao nível dos olhos

que me chamam sempre mais longe

em busca da vaga que seria enfim minha.

Hoje olho-te, mar,

e lembro-me das lágrimas vertidas,

do sal amargo do regresso,

da tua cor cambiante

que me traz o esquecimento

e eu permaneço lá, apaziguada e feliz,

a olhar a maré do presente

que já não é para mim o chamamento

da tua mortal imensidão.

mar bravo

Isabel  Meyrelles

Tanto que fazer
Novembro 9, 2017

Tanto que fazer !
Livros que não se lêem,
cartas que não se escrevem,
línguas que não se aprendem,
amor que não se dá,
tudo quanto se esquece.

Amigos entre adeuses,
crianças chorando na tempestade,
cidadãos assinando papéis, papéis, papéis…
até o fim do mundo assinando papéis.

E os pássaros detrás de grades de chuvas,
e os mortos em redôma de cânfora.
( E uma canção tão bela ! )

Tanto que fazer !
E nunca soubemos quem éramos
nem para quê.

 

Foto de Graça Costa.

Quando, Lídia, vier o nosso Outono
Novembro 3, 2017

Quando, Lídia, vier o nosso outono
com o inverno que há nele, reservemos
um pensamento, não para a futura
primavera, que é de outrem,
nem p’ra o estio, de quem somos mortos,
senão para o que fica do que passa –
o amarelo actual que as folhas vivem
e as torna diferentes.

Outono

Ricardo Reis