Archive for Dezembro, 2017

As Prendas de Natal
Dezembro 25, 2017

Vêm dos tios, dos avós,

em embrulhos coloridos:

são livros e são brinquedos

já há muito prometidos.

.

E nunca mais chega a hora

de serem desembrulhados;

enquanto o momento tarda

há meninos acordados.

.

Ao Natal do presépio

deram os reis os presentes.

Magos, vindos de tão longe,

com túnicas reluzentes.

.

O menino, mal os viu,

logo se pôs a pensar:

“Talvez o melhor presente

seja o amor que vou dar.”

.

Chega embrulhado no sono

o presente mais gostoso:

é o colinho dos pais

abrindo a porta ao repouso.

.

E paira no ar a pergunta

que faz o maior sentido:

para se ter um presente,

há que tê-lo merecido?

.

Seja Jesus ou Pai Natal,

nisto hão de concordar:

o que conta nesta vida

é sabermos partilhar.


José Jorge Letria
    em    O livro do Natal

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Decifra-me
Dezembro 20, 2017

 

 

Não me venha falar de razão, não me cobre lógica, não me peça coerência, eu sou pura emoção.
Tenho razões e motivações próprias, sou movido por paixão, essa é minha religião e minha ciência.
Não meça meus sentimentos, nem tente compará-los a nada, deles sei eu, eu e meus fantasmas, eu e meus medos, eu e minha alma.
Sua incerteza me fere, mas não me mata.
Suas dúvidas me açoitam, mas não deixam cicatrizes.
Não me fale de nuvens, eu sou Sol e Lua.
Não conte as poças, eu sou mar, profundo, intenso, passional.
Não exija prazos e datas, eu sou eterno e atemporal.
Não imponha condições, eu sou absolutamente incondicional.
Não espere explicações, não as tenho, apenas aconteço, sem hora, local ou ordem.
Vivo em cada molécula, sou o todo e sou uno, você não me vê, mas me sente.
Estou tanto na sua solidão, quanto no seu sorriso.
Vive-se por mim, morre-se por mim, sobrevive-se sem mim.
Eu sou começo e fim, e todo o meio.
Sou seu objectivo, sua razão que a razão ignora e desconhece.
Tenho milhões de definições, todas certas, todas imperfeitas, todas lógicas apenas em motivações pessoais, todas correctas, todas erradas.
Sou tudo, sem mim, tudo é nada.
Sou amanhecer, sou Fénix, renasço das cinzas, sei quando tenho que morrer, sei que sempre irei renascer.
Mudo o protagonista, nunca a história.
Mudo de cenário, mas não de roteiro.
Sou música, ecoo, reverbero, sacudo.
Sou fogo, queimo, destruo, incinero.
Sou água, afogo, inundo, invado.
Sou tempo, sem medidas, sem marcações.
Sou clima, proporcional a minha fase.
Sou vento, arrasto, balanço, carrego.
Sou furacão, destruo, devasto, arraso.
Mas sou tijolo, construo, recomeço…
Sou cada estação, no seu apogeu e glória.
Sou seu problema e sua solução.
Sou seu veneno e seu antídoto
Sou sua memória e seu esquecimento.
Eu sou seu reino, seu altar, e seu trono.
Sou sua prisão, sou seu abandono e sou sua liberdade.
Sua luz, sua escuridão e seu desejo de ambas.
Velo seu sono…
Poderia continuar me descrevendo, mas já te dei uma ideia do que sou.
Muito prazer, tenho vários nomes, mas aqui, na sua terra, chamam-me de AMOR.

Autor desconhecido

Chove sempre
Dezembro 12, 2017

Chove sempre quando partes…

Há sempre aviões

que passam por aonde tu vais

Voo para Bruxelas, porta nº 3,

diz a voz

em línguas diferentes,

sucessivamente,

a voz tornada europeia

nascida dos sítios

p’ra onde te levam

aviões de alumínio

.

Chove sempre…

E o motor do carro

que me traz de volta

replica na garganta

o motor tremendo

do teu avião

que arranha no chão

como unha em parede

sentida sem corpo,

na respiração,

no cerne incorpóreo

da vida que oscila e suspende,

que acende e apaga

nas luzes que cruzam

na tua figura

.

Na retina, a rodar

em círculo infernal

fica a mesma imagem

das outras partidas

noutros aviões;

de costas, a gabardine,

a pasta na mão,

o chapéu de chuva,

porque chove sempre…

.

Na minha cabeça

vazia, aquática

martela periódico

presente e real,

futuro e destino:

o limpa pára-brisas

porque chove sempre

quando partes sempre

chuva

Manuela Morgado

Balada dos Amigos Separados
Dezembro 5, 2017

Onde estais vós Alberto Henrique
João Maria Pedro Ana?
Onde anda agora a vossa voz?
Que ruas escutam vossos passos?
Ao norte? ao sul? aonde? aonde?
José António Branca Rui
E tu Joana de olhos claros
E tu Francisco E tu Carlota
E tu Joaquim?
Que estradas colhem vosso olhar?
Onde anda agora a vossa vida repartida?
A oeste? A leste? Aonde? aonde?
Olho prà frente prà cidade
e pràs outras cidades por trás dela
onde se agitam outras gentes
que nunca ouviram vosso nome
e vejo em tudo a vossa cara
e oiço em tudo o som amigo
a voz de um a voz de outro
e aquele fio de sol que se agitava
sempre
em todos nós
Dançam as casas nesta noite
ébrias de sombra nesta noite
que se prolonga em plena angústia
aos solavancos do destino
e não consegue estrangular-nos
Sigo e pergunto ao vento à rua
e a esta ânsia inviolável
que embebe o ar de calafrios
Onde estais vós? onde estais vós?
E por detrás de cada esquina
e por detrás de cada vulto
o vento traz-me a vossa voz
a rua traz-me a vossa voz
a voz de um a voz de outro
toada amiga que me banha
tão confiante tão serena
Aqui aqui em toda a parte
Aqui aqui E tu? aonde?

amigos

Mário Dionísio   em    ‘As Solicitações e Emboscadas’