Archive for Janeiro, 2018

Marco
Janeiro 28, 2018

Na rua escondida

o marco do correio

há muitos anos recebe

as escassas cartas

que mudam a vida.

Há muito que está

fora de serviço

mas a companhia

não informou ninguém.

hug

Pedro Mexia

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Suavidade
Janeiro 22, 2018

Não digas nada!
Nem mesmo a verdade
Há tanta suavidade em nada se dizer
e tudo se entender —
tudo metade
de sentir e de ver…
Não digas nada.
Deixa esquecer.

Talvez que amanhã
em outra paisagem
digas que foi vã
toda essa viagem
até onde quis
ser quem me agrada…
Mas ali fui feliz.
Não digas nada!

Fernando Pessoa    em    “Cancioneiro”

Como se atreve
Janeiro 16, 2018

O calendário ardente dos teus dias

a lista das tuas agonias

como se atreve

como não ousa serenar

serenar-te

no ímpeto fugidio e secreto

o sorriso

e a alta gravidade do estilo

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Ana Hatherly   em   Um calculador de Improbabilidades

Porque a recusas.
Janeiro 8, 2018

Porque a recusas, esta cidade despovoa-se, o granito
torna-se subitamente uma resina pegajosa e hostil.

As gaivotas fogem para o mar com gritos roucos, um
arrepio atravessa as ruas como sinal de inverno.

Encontro as portas fechadas ao longo das paredes; um
curto circuito acaba de apagar o sol, a lua vazia ergue
uma maré que escava furiosamente as praias.

O espaço minga, as folhas secas tombam com um riso
grato: sabem que foram nas árvores a última primavera.

Um coração está pousado no solo e eu tropeço na sua
derradeira pulsação. Já o vi algures, creio, antes do medo.

Foz

Egito Gonçalves    em    Luz Vegetal

Porto sentido
Janeiro 2, 2018

porto

Quem vem e atravessa o rio

junto à serra do Pilar,

vê um velho casario

que se estende até ao mar.

.

Quem te vê ao vir da ponte

és cascata sanjoanina

erigida sobre um monte,

no meio da neblina.

,

Por ruelas e calçadas,

da Ribeira até à Foz,

por pedras sujas e gastas

e lampiões tristes e sós.

.

Esse teu ar grave e sério,

num rosto de cantaria

que nos oculta o mistério

dessa luz bela e sombria.

.

Ver-te assim abandonado

nesse timbre pardacento,

nesse teu jeito fechado,

de quem mói um sentimento.

.

E é sempre a primeira vez,

em cada regresso a casa,

rever-te nessa altivez

de milhafre ferido na asa.

Carlos Tê