Archive for Março, 2018

Canção tão simples
Março 27, 2018

Quem poderá domar os cavalos do vento

quem poderá domar este tropel

do pensamento

à flor da pele?

.

Quem poderá calar a voz do sino triste

que diz por dentro do que se não diz

a fúria em riste

do meu país?

.

Quem poderá proibir estas letras de chuva

que gota a gota escorrem nas vidraças

pátria viúva

a dor que passa?

.

Quem poderá prender os dedos farpas

que dentro da canção fazem das brisas

as armas harpas

que são precisas?

chuva4

Manuel  Alegre

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Cantiga, partindo-se
Março 19, 2018

Senhora, partem tão tristes
meus olhos por vós, meu bem,
que nunca tão tristes vistes
outros nenhuns por ninguém

Tão tristes, tão saudosos,
tão doentes da partida,
tão cansados, tão chorosos,
da morte mais desejosos
cem mil vezes que da vida.

Partem tão tristes os tristes,
tão fora de esperar bem,
que nunca tão tristes vistes
outros nenhuns por ninguém.

adeus

João Roiz de Castel-Branco

Dia
Março 12, 2018

O dia foi de chumbo em sua mansa calma.

E foi um rio bem fundo em que as palavras,

à partida discretas, mais pesaram.

E a morte percutiu (coexistiu)

num gume de espada incendiada.

E as pedras afluíram (confluíram)

num sulfuroso rosto à beira d’água.

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João Rui de Sousa

Devagar te amo
Março 6, 2018

Devagar te amo, e devagar assomo
os dedos à altura dos olhos, do cabelo
dos anéis de outro turno, que é só meu
por querê-lo, meu amor, como a ti mesma quero
nos tempos de passado e sem futuro.
Devagar avanço um dealbar de dias
que vida seriam – mesmo que morto, à noite,
eu voltasse amargurado mas presente,
calado e quedo, e devagar amando.

amores-impossiveis-3162451-1238

Pedro Tamen      em    “Rua de Nenhures”.