Archive for Junho, 2018

Poema dos Alicerces da nossa Vida
Junho 30, 2018

Já a nossa vida não tem alicerces: pássaro sem nexo,
ela conduz-nos a qualquer lugar e também
não nos faz promessas. Deixa andar.
Todas as coisas serão finalmente reconduzidas
à sua própria dimensão
e nós próprios, melhor será não esperarmos nada
e agradecermos qualquer gesto de amor ou qualquer ato de camaradagem,
como se realmente o não merecêssemos, dádiva esplendorosa e gratuita
da nossa vida sem alicerces.

gaivotas

Luís Filipe Castro Mendes    em     Poemas Reunidos

Ninguém
Junho 24, 2018

Ninguém, meu amor,
ninguém como nós conhece o sol.
Podem utilizá-lo nos espelhos,
apagar com ele
os barcos de papel nos nossos lagos,
podem obrigá-lo a parar
à entrada das casas mais baixas,
podem ainda fazer
com que a noite gravite
hoje do mesmo lado.
.
Mas ninguém, meu amor,
ninguém como nós conhece o sol.
Até que o sol degole
o horizonte em que um a um
nos deitam
vendando-nos os olhos.

sol nas mãos

Sebastião da Gama

Balada
Junho 18, 2018

Amei-te muito, e eu creio que me quiseste
também por um instante nesse dia
em que tão docemente me disseste
que amavas ‘ma mulher que o não sabia.

Amei-te muito, muito! Tão risonho
aquele dia foi, aquela tarde!…
E morreu como morre todo o sonho
deixando atrás de si só a saudade! …

E na taça do amor, a ambrosia
da quimera bebi aquele dia
a tragos bons, profundos, a cantar…

O meu sonho morreu… Que desgraçada!
E como o rei de Thule da balada
deitei também a minha taça ao mar …
florbelaespanca.thumbnail

Florbela EspancaTrocando olhares – 08/08/1916

A estrada branca
Junho 12, 2018

Atravessei contigo a minuciosa tarde

deste-me a tua mão, a vida parecia

difícil de estabelecer

acima do muro alto

.

folhas tremiam

ao invisível peso mais forte

.

Podia morrer por uma só dessas coisas

que trazemos sem que possam ser ditas:

astros cruzam-se numa velocidade que apavora

inamovíveis glaciares por fim se deslocam

e na única forma que tem de acompanhar-te

o meu coração bate

Outono

José Tolentino Mendonça

Carta à minha filha
Junho 4, 2018

 

Lembras-te de dizer que a vida era uma fila?
Eras pequena e o cabelo mais claro,
mas os olhos iguais. Na metáfora dada
pela infância, perguntavas do espanto
da morte e do nascer, e de quem se seguia
e porque se seguia, ou da total ausência
de razão nessa cadeia em sonho de novelo.

Hoje, nesta noite tão quente rompendo-se
de junho, o teu cabelo claro mais escuro,
queria contar-te que a vida é também isso:
uma fila no espaço, uma fila no tempo
e que o teu tempo ao meu se seguirá.

Num estilo que gostava, esse de um homem
que um dia lembrou Goya numa carta a seus
filhos, queria dizer-te que a vida é também
isto: uma espingarda às vezes carregada
(como dizia uma mulher sozinha, mas grande
de jardim). Mostrar-te leite-creme, deixar-te
testamentos, falar-te de tigelas – é sempre
olhar-te amor. Mas é também desordenar-te à
vida, entrincheirar-te, e a mim, em fila descontínua
de mentiras, em carinho de verso.

E o que queria dizer-te é dos nexos da vida,
de quem a habita para além do ar.
E que o respeito inteiro e infinito
não precisa de vir depois do amor.
Nem antes. Que as filas só são úteis
como formas de olhar, maneiras de ordenar
o nosso espanto, mas que é possível pontos
paralelos, espelhos e não janelas.
E que tudo está bem e é bom: fila ou
novelo, duas cabeças tais num corpo só,
ou um dragão sem fogo, ou unicórnio
ameaçando chamas muito vivas.
Como o cabelo claro que tinhas nessa altura
se transformou castanho, ainda claro,
e a metáfora feita pela infância
se revelou tão boa no poema. Se revela
tão útil para falar da vida, essa que,
sem tigelas, intactas ou partidas, continua
a ser boa, mesmo que em dissonância de novelo.

Não sei que te dirão num futuro mais perto,
se quem assim habita os espaços das vidas
tem olhos de gigante ou chifres monstruosos.
Porque te amo, queria-te um antídoto
igual a elixir, que te fizesse grande
de repente, voando, como fada, sobre a fila.
Mas por te amar, não posso fazer isso,
e nesta noite quente a rasgar junho,
quero dizer-te da fila e do novelo
e das formas de amar todas diversas,
mas feitas de pequenos sons de espanto,
se o justo e o humano aí se abraçam.

A vida, minha filha, pode ser
de metáfora outra: uma língua de fogo;
uma camisa branca da cor do pesadelo.
Mas também esse bolbo que me deste,
e que agora floriu, passado um ano.
Porque houve terra, alguma água leve,
e uma varanda a libertar-lhe os passos.

menina

Ana Luísa Amaral,   em    ‘Imagias (Um pouco só de Goya: Carta a minha Filha)’