Archive for Julho, 2018

Da mais alta janela da minha casa
Julho 31, 2018

Da mais alta janela da minha casa
com um lenço branco digo adeus
aos meus versos que partem para a Humanidade.

E não estou alegre nem triste.
Esse é o destino dos versos.
Escrevi-os e devo mostrá-los a todos
porque não posso fazer o contrário
Como a flor não pode esconder a cor,
nem o rio esconder que corre,
nem a árvore esconder que dá fruto.

Ei-los que vão já longe como que na diligência
e eu sem querer sinto pena
como uma dor no corpo.

Quem sabe quem os terá?
Quem sabe a que mãos irão?

Flor, colheu-me o meu destino para os olhos.
Árvore, arrancaram-me os frutos para as bocas.
Rio, o destino da minha água era não ficar em mim.
Submeto-me e sinto-me quase alegre,
quase alegre como quem se cansa de estar triste.

Ide, ide de mim!
Passa a árvore e fica dispersa pela Natureza.
Murcha a flor e o seu pó dura sempre.
Corre o rio e entra no mar e a sua água é sempre a que foi sua.

Passo e fico, como o Universo.

Alberto Caeiro    em    “O Guardador de Rebanhos

Mão humana
Julho 25, 2018

o meu país arde
a galiza arde
a europa arde

há mão humana
do início ao fim

há mão humana
nas alterações climáticas

há mão humana
no abandono
no desleixo
no é meu
aqui mando eu

há mão humana
no crime

há mão humana
nos salvamentos
no heroísmo
na impotência
no espanto

no que resta nas cinzas
onde descobrem nome
há mão humana

há mão humana
há mão humana
há mão humana

não conheço outra

fogo

A. H. Cravo

 

Chamamento
Julho 19, 2018

Quero ir

e vou ficando

.

além-mar

aquém-dor

.

Tenho olhos de nuvens

a algas de a(braços)

gaivotas em terra

num mar de sargaços

.

Quero ir

e vou ficando

.

apelo de sereia

âncora de limos

.

Vogo nas ondas altas

enterrando os pés a fundo

no areal da saudade

despojo de outro mundo

Quero ir

e vou ficando

.

Salpico de onda

búzio sem mar

.

Parti na traineira

que sulcou o mar

veleiro encalhado

com velas sem ar

.

Quero ir

e vou ficando

.

até ao fim do mundo

no centro do meu chão

.

Chamamento de distância

redes vazias nas mãos.

Na Terra Nova, os beijos

sonhos movediços, vãos

.

Quero ir

e vou ficando

.

No horizonte da partida

no cais da minha vida

solto a verdade liberta

lanço conchas no areal

No vento lanço meu esto

No rosto há ruas de sal

.

Quero ir

e vou ficando

.

ao oriente do sol

ao ocidente do ocaso

.

Ergo uma proa altiva

das águas da imensidão

Marejo olhos tristes

na espuma da rebentação

.

Quero ir

e vou ficando

.

no alento da viagem

na solidão da margem

mar_2

Ana Homem de Albergaria

Explicação
Julho 13, 2018

Só isto : trouxeste sol e calor

quando fazia frio…

.

Agora, de novo

alguém para se querer, para se chamar

de querida.

.

Só isto : trouxeste uma flor

e a fizeste crescer e desabrochar

neste ramo vazio

que era a minha vida.

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J. G. Araújo Jorge

Os dias de Verão
Julho 7, 2018

Os dias de verão vastos como um reino
cintilantes de areia e maré lisa
Os quartos apuram seu fresco de penumbra
Irmão do lírio e da concha é nosso corpo

Tempo é de repouso e festa
O instante é completo como um fruto
Irmão do universo é nosso corpo

O destino torna-se próximo e legível
enquanto no terraço fitamos o alto enigma familiar dos astros
que em sua imóvel mobilidade nos conduzem

como se em tudo aflorasse eternidade

Justa é a forma do nosso corpo

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Sophia de Mello Breyner Andresen    em    Obra Poética