Archive for Maio, 2019

Balada do bom cavaquista
Maio 26, 2019

que eu sempre fui um bom cavaquista

nem é preciso repeti-lo:

anos depois já só se avista

tanto canário, tanto grilo,

tanto gorjeio, tanto trilo

que de promessas se guarnece:

um mundo e outro, isto e aquilo,

e o povo tem o que merece.

.

vi engrossar de boys a lista,

vi saltitar mais do que o esquilo,

de galho em galho ser artista,

e armar o estado em crocodilo.

voracidade? era do estilo.

economia? ai que arrefece!

vi portugal vendido ao quilo

e o povo tem o que merece.

.

vi muito pássaro na pista

já de asa murcha e intranquilo,

já sem alface nem alpista

e já sem grão dentro do silo,

secou a teta e o mamilo,

chegou a hora, chega o stress.

há vários anos que refilo,

e o povo tem o que merece.

.

senhor, na entrada deste asilo,

mordeu-se a isca da benesse

e o povo tem o que merece.

Rain

Vasco Graça Moura

Anúncios

Lembra-te
Maio 18, 2019

 

Lembra-te
que todos os momentos
que nos coroaram
todas as estradas
radiosas que abrimos
irão achando sem fim
seu ansioso lugar
seu botão de florir
o horizonte
e que dessa procura
extenuante e precisa
não teremos sinal
senão o de saber
que irá por onde fomos
um para o outro
vividos

flor amarela

Mário Cesariny de Vasconcelos    em   “Pena Capital

A mulher mais bonita do mundo
Maio 12, 2019

estás tão bonita hoje. quando digo que nasceram
flores novas na terra do jardim, quero dizer
que estás bonita.

entro na casa, entro no quarto, abro o armário,
abro uma gaveta, abro uma caixa onde está o teu fio
de ouro.

entre os dedos, seguro o teu fino fio de ouro, como
se tocasse a pele do teu pescoço.

há o céu, a casa, o quarto, e tu estás dentro de mim.

estás tão bonita hoje.

os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios.

estás dentro de algo que está dentro de todas as
coisas, a minha voz nomeia-te para descrever
a beleza.

os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios.

de encontro ao silêncio, dentro do mundo,
estás tão bonita é aquilo que quero dizer.

José Luis Peixoto

3.
Maio 6, 2019

era assim como se nunca mão de homem tivesse
ultrapassado os limites da minha pele assim como

um grito cortado na cintura esperando que
o teu rasto de repente se esfumasse entre
os medos da manhã e nenhuma tempestade
pudesse alguma vez desviar os teus passos e
o espanto que neles gritava como
no primeiro dia em que houve luz e todos os nomes que de um momento para o outro
as coisas possuíam entraram nas minhas veias
e ergueram-se na minha noite sem
esperar pela vinda de ninguém e cada sílaba que nascia trazia consigo
uma maneira diferente e inútil
de te esquecer
.
Alice  Vieira   em    Os armários da noite ( livro a publicar)

O título vem de uma epígrafe do Nuno Júdice:

“(…)não convém abrir
os armários da noite, mesmo que as sombras nos peçam
o que está dentro dele.”