Archive for Julho, 2019

Soneto do Corifeu
Julho 25, 2019

São demais os perigos desta vida
para quem tem paixão, principalmente,
quando uma lua surge de repente
e se deixa no céu, como esquecida.
.
E se ao luar que atua desvairado
vem se unir uma música qualquer,
aí então é preciso ter cuidado
porque deve andar perto uma mulher.
.
Deve andar perto uma mulher que é feita
de música, luar e sentimento
e que a vida não quer, de tão perfeita.
.
Uma mulher que é como a própria Lua:
tão linda que só espalha sofrimento,
tão cheia de pudor que vive nua.

Vinicius de Moraes

A verdadeira mão
Julho 18, 2019

A verdadeira mão que o poeta estende
não tem dedos:
é um gesto que se perde
no próprio acto de dar-se

O poeta desaparece
na verdade da sua ausência
dissolve-se no biombo da escrita

O poema é
a única
a verdadeira mão que o poeta estende

E quando o poema é bom
não te aperta a mão:
aperta-te a garganta

ANA HATHERLY | O Pavão Negro (2003)

Mecânica de um abraço
Julho 11, 2019

O que encerras num abraço quando
abraças alguém não é
um corpo: é o tempo. Nesse demorar suspenso
(enquanto deténs outra vida) há
um corpo que é teu enquanto o reténs
nos braços
(porquanto o tens para ti
suspendendo o movimento)
enquanto páras o tempo pelo
tempo
de um abraço. Mas a
força dos teus abraços é mais fraca
que a do tempo e
tens de ser tu a ceder
(tens de ser tu a largar) porque
o tempo não aceita estar parado tanto tempo e
exige que o soltes para
tornar ao movimento.

abraco1

João Luís Barreto Guimarães    em   Nómada

Como na montanha
Julho 3, 2019

Não me perguntes nada. Só teus olhos

olhando-me, respondam confiados.

E tuas mãos, sentindo os meus cuidados,

saibam trazer promessas e consolos.

.

Ou diz, pois oiço tudo. A tua voz

é fluxo mineral, nem é palavras,

tal, na montanha, sebes, trilhos, lavras:

malhas na pele de um ser grande, feroz.

.

Viver é isto, como, na montanha,

o sol, as estações, que vêm, que vão,

um sono onde trabalha mão estranha,

.

urdindo sonhos e destruição.

Por isso, não perguntes. Tua mão

se pouse em mim, com o olhar me banha.

agreste

Ricardo Lima