Archive for Fevereiro, 2020

É verdade
Fevereiro 24, 2020

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É verdade «que um baixo amor os fortes enfraquece»
mas também o grande amor torna ridículos os grandes,
pois o amor é, em energia material sobre o mundo, um roubo— apesar de, em sensações, ser magnífico. 0 amor será útil internamente,
mas externamente não carrega um tijolo.
Disso nunca tive dúvidas.

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A vida, é certo, não será um sítio excepcional para as paixões.
Nos países humanos, o amor mistura-se muito
com palavras equívocas.
0 fogo que existe numa lareira, por exemplo,
é um fogo servil, cultural, educado.
Uma coisa vermelha, mas mansa,
que nos obedece.
Só é natureza, o fogo na lareira,
quando, vingando-se, provoca um incêndio.
E o amor assim funciona. Mas é preferível o contrário.

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É desarranjo de estratégias e planos,
surpresa ritmada, uma ilegalidade exaltante que não prejudica
os vizinhos.
Mas atenção, de novo: o amor não faz bem aos países,
não desenvolve as suas indústrias, nem a economia.
Disso nunca tive dúvidas. E por isso é preferível não.

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No entanto, qual é o país que pode impedir que o amor
entre? Não é mercadoria traficada em caixas,
que as caixas são objectos que se abrem ao meio
— e é possível, com uma lanterna, olhar lá para dentro.

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0 amor não se vê como
se fosse uma presença.
É demasiado completo
para ter uma forma. E como jamais
se conseguiram obter juros de uma coisa
que não ocupa espaço, é preferível não,
parece-me.

Gonçalo M. Tavares     em    “Uma Viagem à Índia”

Eu cantarei de amor tão docemente
Fevereiro 14, 2020

Eu cantarei de amor tão docemente,
por uns termos em si tão concertados,
que dois mil acidentes namorados
faça sentir ao peito que não sente.
.
Farei que amor a todos avivente,
pintando mil segredos delicados,
brandas iras, suspiros magoados,
temerosa ousadia e pena ausente.
.
Também, Senhora, do desprezo honesto
de vossa vida branda e rigorosa,
contentar-me-ei dizendo a menor parte.
.
Porém, para cantar de vosso gesto
a composição alta e milagrosa,
aqui falta saber, engenho e arte.

Luís de Camões

Na melancolia de teus olhos
Fevereiro 14, 2020

Na melancolia de teus olhos
eu sinto a noite se inclinar
e ouço as cantigas antigas
do mar.
.
Nos frios espaços de teus braços
eu me perco em carícias de água
e durmo escutando em vão
o silêncio.
.
E anseio em teu misterioso seio
na atonia das ondas redondas.
Náufrago entregue ao fluxo forte
da morte.

Vinicius de Moraes

Hoje
Fevereiro 5, 2020

Hoje que a tarde é calma e o céu tranqüilo,
e a noite chega sem que eu saiba bem,
quero considerar-me e ver aquilo
que sou, e o que sou o que é que tem.

Olho por todo o meu passado e vejo
que fui quem foi aquilo em torno meu,
salvo o que o vago e incógnito desejo
se ser eu mesmo de meu ser me deu.

Como a páginas já relidas, vergo
minha atenção sobre quem fui de mim,
e nada de verdade em mim albergo
salvo uma ânsia sem princípio ou fim.

Como alguém distraído na viagem,
segui por dois caminhos par a par.
Fui com o mundo, parte da paisagem;
comigo fui, sem ver nem recordar.

Chegado aqui, onde hoje estou, conheço
que sou diverso no que informe estou.
No meu próprio caminho me atravesso.
Não conheço quem fui no que hoje sou.

Serei eu, porque nada é impossível,
vários trazidos de outros mundos, e
no mesmo ponto espacial sensível
que sou eu, sendo eu por me ’star aqui ?

Serei eu, porque todo o pensamento
podendo conceber, bem pode ser,
um dilatado e múrmuro momento,
de tempos-seres de quem sou o viver ?

fp

 Fernando Pessoa