A criança que fui


A criança que fui chora na estrada.
deixei-a ali quando vim ser quem sou;
mas hoje, vendo que o que sou é nada,
quero ir buscar quem fui onde ficou.

Ah, como hei-de encontrá-lo? Quem errou
a vinda tem a regressão errada.
Já não sei de onde vim nem onde estou.
De o não saber, minha alma está parada.

Se ao menos atingir neste lugar
um alto monte, de onde possa enfim
o que esqueci, olhando-o, relembrar,

na ausência, ao menos, saberei de mim,
e, ao ver-me tal qual fui ao longe, achar
em mim um pouco de quando era assim.

crianca4[1]

Fernando Pessoa

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