Archive for the ‘Caminho’ Category

Como fazer-te saber que há sempre tempo?
Novembro 1, 2010

 

Que temos que buscá-lo e dá-lo…
Que ninguém estabelece normas, senão a vida…
Que a vida sem certas normas perde formas…
Que a forma não se perde com abrirmo-nos…
Que abrirmo-nos não é amar indiscriminadamente…
Que não é proibido amar…
Que também se pode odiar…
Que a agressão porque sim, fere muito…
Que as feridas fecham-se…
Que as portas não devem fechar-se…
Que a maior porta é o afecto…
Que os afectos definem-nos…
Que definir-se não é remar contra a corrente…
Que não quanto mais se carrega no traço mais se desenha…
Que negar palavras é abrir distâncias…
Que encontrar-se é lindo…
Que o sexo faz parte da lindeza da vida…
Que a vida parte do sexo…
Que o porquê das crianças tem o seu porquê…
Que querer saber de alguém não é só curiosidade…
Que saber tudo de todos é curiosidade malsã…
Que nunca é demais agradecer…
Que autodeterminação não é fazer as coisas sozinho…
Que ninguém quer estar só…
Que para não estar só há que dar…
Que para dar devemos antes receber…
Que para nos darem há também que saber pedir…
Que saber pedir não é oferecer-se…
Que oferecer-se, em definitivo, não é querer-se…
Que para nos quererem devemos mostrar quem somos…
Que para alguém ser é preciso dar-lhe ajuda…
Que ajudar é poder dar ânimo e apoiar…
Que adular não é apoiar…
Que adular é tão pernicioso como virar a cara…
Que as coisas cara a cara são honestas…
Que ninguém é honesto por não roubar…
Que quando não se tira prazer das coisas não se vive…
Que para sentir a vida temos de esquecer que existe a morte…
Que se pode estar morto em vida…
Que sentimos com o corpo e a mente…
Que com os ouvidos se escuta…
Que custa ser sensível e não se ferir…
Que ferir-se não é sangrar…
Que para não nos ferirmos levantamos muros…
Que melhor seria fazer pontes…
Que por elas se vai à outra margem e ninguém volta…
Que voltar não implica retroceder…
Que retroceder também pode ser avançar…
Que não é por muito avançar que se amanhece mais perto do sol…

Como fazer-te saber que ninguém estabelece normas, senão a vida?

 

Mario Benedetti  em  Dos Afectos

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Entardecer
Setembro 27, 2010

Sei que estás longe e triste…

Não conheço a tragédia que escondes

 nos teus olhos meigos.

Mas sinto-a… esse desespero escondido

em sorrisos calmos e cansados.

A tua vertigem da morte assusta-me…

sobretudo pelo que traduz

de falta de esperança no amanhã.

Não te peço para renasceres…

apenas que deixes o encanto

do entardecer emprestar-te a sua luz

de fim de dia são, realizado…

Diana Sá

 

 

Fluidez
Julho 16, 2010

Nada é imutável.

Tudo é mutável.

Tudo é transformação.

O Ser é o vector da cadência,

a entidade fluida

no irradiar do multiverso.

Nada é impossibilidade.

Tudo é possibilidade.

Tudo é evolução.

Vicente Ferreira da Silva

Poema 1
Junho 30, 2010

Pergunto-te onde se acha a minha vida.

Em que dia fui eu. Que hora existiu formada

de uma verdade minha bem possuída.

Vão-se as minhas perguntas aos depósitos do nada.

E a quem é que pergunto? Em quem penso, iludida

por esperanças hereditárias? E de cada

pergunta minha vai nascendo a sombra imensa

que envolve a posição dos olhos de quem pensa.

Já não sei mais a diferença

de ti, de mim, da coisa perguntada,

do silêncio da coisa irrespondida.

Cecília Meireles 

E tudo era possível…
Junho 14, 2010

 

Na minha juventude antes de ter saído

da casa dos meus pais disposto a viajar,

eu conhecia já o rebentar do mar

das páginas dos livros que já tinha lido.

Chegava o mês de maio era tudo florido,

o rolo das manhãs punha-se a circular

e era só ouvir o sonhador falar

da vida como se ela houvesse acontecido.

E tudo se passava numa outra vida

e havia para as coisas sempre uma saída

Quando foi isso? Eu próprio não o sei dizer.

Só sei que tinha o poder duma criança

entre as coisas e mim havia vizinhança

e tudo era possível era só querer.

Ruy Belo

Andei à minha procura
Maio 28, 2010

 

Andei á minha procura
P’las ruas onde nasci
Percorri minha amargura
Da procura, nada vi

Fui procurar na alegria
No sonho, no sofrimento
Só encontrei foi tormento
De sonhos estava vazia

Então passei p’la saudade
P’la rua e p’lo meu jardim
Perguntei à mocidade
Se havia sinal de mim

Fui aos sonhos de criança
Mas sabia de antemão
Que qual fosse a lembrança
Me feriu o coração

Andei á deriva no mar
Destas minhas ilusões
Mas só sofri decepções
Pois não me fui encontrar

E nesta procura de dor
De tanto procurar enfim
Encontrei-te meu amor
No que restava de mim.

Autor desconhecido

 

Coisa mais linda
Abril 29, 2010

 

Liberdade
Abril 25, 2010

 

Esta é a madrugada que eu esperava

o dia inicial inteiro e limpo

onde emergimos da noite e do silêncio

e livres habitamos a substância do tempo.

Sophia de Mello Breyner Andresen

Portas
Março 12, 2010

Portas no desamparo…

A vida abre-se,

horizontes espraiam-se,

é preciso procurar novos rumos.

O passado persiste,

com as suas luzes e sombras.

O futuro é uma incógnita,

depois dos castigos do tempo.

É difícil continuar…

O presente obriga a mudanças.

É preciso recomeçar.

Diana Sá

Lua adversa
Janeiro 28, 2010

Tenho fases, como a lua.

Fases de andar escondida,

fases de vir para a rua…

Perdição da minha vida !

Perdição da vida minha !

Tenho fases de ser tua,

outras de andar sozinha.

Fases que vão e que vêm,

no secreto calendário

que um astrólogo arbitrário

inventou para meu uso.

E roda a melancolia

seu interminável fuso !

Não me encontro com ninguém

(tenho fases, como a lua…)

No dia de alguém ser meu

não é dia de eu ser sua…

E, quando chega esse dia,

o outro desapareceu.

Cecília  Meireles