Archive for the ‘pensamentos’ Category

Soneto do Corifeu
Julho 25, 2019

São demais os perigos desta vida
para quem tem paixão, principalmente,
quando uma lua surge de repente
e se deixa no céu, como esquecida.
.
E se ao luar que atua desvairado
vem se unir uma música qualquer,
aí então é preciso ter cuidado
porque deve andar perto uma mulher.
.
Deve andar perto uma mulher que é feita
de música, luar e sentimento
e que a vida não quer, de tão perfeita.
.
Uma mulher que é como a própria Lua:
tão linda que só espalha sofrimento,
tão cheia de pudor que vive nua.

Vinicius de Moraes

Entre mim e a vida
Março 8, 2019

Já não escrevo sem algo entre mim e a vida:

olho a paisagem,

há inúmeros campos,

regresso a casa pelas estradas de terra,

tropeço em cada pedra.

O sangue do horizonte circula

nas minhas veias,

mas canto a natureza entre mim e a vida.

.

Se volto ao refúgio das paredes domésticas,

surge o teu semblante

no percurso

(é uma realidade,

esqueci as personagens fictícias).

Quero dizer o rosto do último lugar

habitável

e pronuncio o teu nome, perdido.

.

Quando era menos incompleto

trabalhava os poemas

até ao silêncio,

para que dissessem o rumor inaudito,

agora vêm das nascentes

sem a contagem das sílabas.

Consciente da origem e do fim,

de nada separado,

digo milhares de palavras entre mim e a vida.

natureza_rio

Joel  Henriques

Cantiga para não morrer
Dezembro 21, 2016

Quando você for se embora,
moça branca como a neve,
me leve.

Se acaso você não possa
me carregar pela mão,
menina branca de neve,
me leve no coração.

Se no coração não possa
por acaso me levar,
moça de sonho e de neve,
me leve no seu lembrar.

E se aí também não possa
por tanta coisa que leve
já viva em seu pensamento,
menina branca de neve,
me leve no esquecimento.

fugaz

Ferreira Gullar   in   “Dentro da Noite Veloz

Ânsia
Janeiro 20, 2015

 

Não me deixem tranquilo
não me guardem sossego
eu quero a ânsia da onda
o eterno rebentar da espuma.

As horas são-me escassas:
dai-me o tempo
ainda que o não mereça
que eu quero
ter outra vez
idades que nunca tive
para ser sempre
eu e a vida
nesta dança desencontrada
como se de corpos
tivéssemos trocado
para morrer vivendo.

espuma

Mia Couto  

 

em   “Raiz de orvalho e outros poemas”

A fala
Janeiro 14, 2015

Sou de uma Europa de periferia

na minha língua há o estilo manuelino

cada verso é uma outra geografia

aqui vai-se a Camões e é um destino.

.

Velas veleiro vento. E o que se ouvia

era sempre na fala o mar e o signo.

Gramática de sal e maresia

na minha língua há um marulhar contínuo.

.

Há nela o som do sul o tom da viagem.

O azul. O fogo de Santelmo e a tromba

de água. E também sol. E também sombra.

.

Verás na minha língua a outra margem.

Os símbolos  os ritmos  os sinais.

E Europa que não mais Mestre não mais.

mar bravo

Manuel  Alegre

2014 in review
Dezembro 30, 2014

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Aquilo que eu não fiz
Agosto 15, 2014

Eu não quero pagar por aquilo que eu não fiz

não me fazem ver que a luta é pelo meu país

Eu não quero pagar depois de tudo o que dei

não me fazem ver que fui eu que errei

.

não fui eu que gastei

mais do que era para mim

não fui eu que tirei

não fui eu que comi

não fui eu que comprei

não fui eu que escondi

quando estavam a olhar

não fui eu que fugi

não é essa a razão

para me quererem moldar

porque eu não me escolhi

para a fila do pão

este barco afundou

quando alguém aqui chegou

não fui eu que não vi

.

Eu não quero pagar por aquilo que não fiz

não me fazem ver que a luta é pelo meu país

Eu não quero pagar depois de tudo o que dei

não me fazem ver que fui eu que errei

.

talvez do que não sei

talvez do que não vi

foi de mão para mão

mas não passou por mim

e perdeu-se a razão

tudo o bom se feriu

foi mesquinha a canção

de esse amor a fingir

não me falem do fim

se o caminho é mentir

se quiseram entrar

não souberam sair

não fui eu quem falhou

não fui eu quem cegou

já não sabem sair

.

Eu não quero pagar por aquilo que eu não fiz

não me fazem ver que a luta é pelo meu país

Eu não quero pagar depois de tudo o que dei

não me fazem ver que fui eu que errei

.

meu sono é de armas e mar

minha força é navegar

meu norte em contraluz

meu fado é vento que leva

e conduz

e conduz

e conduz

barco 2

Tiago Bettencourt

Sábados
Abril 14, 2012


Lá fora, há um ocaso, obscura jóia
… engastada no tempo,
e uma recôndita cidade cega
de homens que não te viram.
A tarde cala ou canta.
Alguém descrucifica os ansios
cravados no piano.
Sempre a abundância da tua beleza.
* * *

A despeito do teu desamor,
a tua beleza
prolonga o seu milagre pelo tempo.
A felicidade mora em ti
tal como a Primavera numa folha nova.
Não sou quase ninguém,
sou apenas o anseio
que se perde na tarde.
Em ti mora o prazer
tal como a crueldade nas espadas.

* * *

Carregando as persianas vem a noite.
Na sala tão severa, como cegos,
procuram-se uma à outra as nossas solidões,
Sobreviveu à tarde
a brancura gloriosa da tua carne.
No nosso amor há uma pena
parecida com a alma.

* * *

Tu
que ainda ontem eras só toda a beleza
és agora também todo o amor.

Jorge Luís Borges

Não tens perdão
Janeiro 12, 2012

Não me disseste amante, madrugada,
pedra-de-lua, pássaro, viagem.
No meu corpo de Agosto feito à estrada,
não descobriste a sombra da folhagem.
Não murmuraste ao menos solidão.
Amora, mel, morango, não disseste.
Não te pedi nem mar nem coração.
Não tens perdão.
Fui água e não bebeste.

 Rosa Lobato de Faria

A vida e a bola
Abril 12, 2011

A vida é como atirar uma bola à parede.

Se for atirada uma bola verde, ela voltará verde ;

se for atirada uma bola azul, ela voltará azul ;

se a bola for atirada fraca, ela voltará fraca ;

se a bola for atirada com força ,

ela voltará com força.

Por isso, nunca “atire uma bola na vida”,

de forma a que não esteja pronto para recebê-la.

A vida não dá nem empresta ;

não se comove nem se apieda.

Tudo o que ela faz é retribuir e transferir

aquilo que nós lhe oferecemos.

Albert  Einstein