Archive for the ‘poemas’ Category

Guardar
Outubro 7, 2018

 

 

Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la.

Em cofre não se guarda coisa alguma.

Em cofre perde-se a coisa à vista.

Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por

admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.

Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por

ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela,

isto é, estar por ela ou ser por ela.

Por isso melhor se guarda o voo de um pássaro

do que um pássaro sem voos.

Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica,

por isso se declara e declama um poema.

Para guardá-lo:

Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda:

Guarde o que quer que guarda um poema:

Por isso o lance do poema:

Por guardar-se o que se quer guardar.

Liberte-se

António Cícero     em    Guardar: poemas escolhidos.

Pavio
Setembro 28, 2017

cora

 

És uma candeia ao canto do quarto
às vezes longe, às vezes perto.
Trazes o brilho e a coragem,
demonstras a fé nesta viagem…

– E eu estou aqui deitado,
às vezes ao frio, às vezes tapado
(cresce em mim a tempestade)
– Aqueço assim a saudade.

E no frio desta caverna
húmida e teimosamente eterna,
pingo a pingo, hoje, amanhã e depois,
lembro as vidas que não tivemos os dois.
Apenas este pavio
veio acalmar este frio
nas mãos, na mente e na alma.
Uma voz suave que acalma…

Cêra.
Quimera.
Sonho.
Coração tamanho.

António

Podia ter sido
Julho 1, 2017

Podia ter sido o amor se não tivesse vindo
tão directamente da sede
um duplo rosto de enganos e os braços
que saíram desertos
o eco da morte reverbera na pele
com que vejo a tua ausência encher as ruas
um choro de papel cai pela terra
e nunca foi tão tarde ser depois.

olho-200

Pedro Sena-Lino

Dies Irae
Novembro 2, 2015

Apetece cantar, mas ninguém canta.
Apetece chorar, mas ninguém chora.
Um fantasma levanta
a mão do dedo sobre a nossa hora.
.
Apetece gritar, mas ninguém grita.
Apetece fugir, mas ninguém foge.
Um fantasma limita
todo o futuro a este dia de hoje.
.
Apetece morrer, mas ninguém morre.
Apetece matar, mas ninguém mata.
Um fantasma percorre
os motivos onde a alma se arrebata.
.
Oh! Maldição do tempo em que vivemos,
sepultura de grades cinzeladas
que deixam ver a vida que não temos
e as angústias paradas.

.
soledad_y_tristeza_by_magdalena220

Miguel Torga