Archive for the ‘poesia, poemas, amor, pensamentos’ Category

A hora do cansaço
Novembro 16, 2019

As coisas que amamos,

as pessoas que amamos

são eternas até certo ponto.

Duram o infinito variável

no limite de nosso poder

de respirar a eternidade.

.

Pensá-las é pensar que não acabam nunca,

dar-lhes moldura de granito.

De outra matéria se tornam, absoluta,

numa outra (maior) realidade.

.

Começam a esmaecer quando nos cansamos,

e todos nós cansamos, por um outro itinerário,

de aspirar a resina do eterno.

Já não pretendemos que sejam imperecíveis.

Restituímos cada ser e coisa à condição precária,

rebaixamos o amor ao estado de utilidade.

.

Do sonho de eterno fica esse gosto ocre

na boca ou na mente, sei lá, talvez no ar.

eternidade

Carlos Drummond de Andrade

Motivo
Novembro 10, 2019

Eu canto porque o instante existe

e a minha vida está completa.

Não sou alegre nem sou triste

sou poeta.
.
.
Irmão das coisas fugidias,

não sinto gozo nem tormento.

Atravesso noites e dias

no vento.
.
.
Se desmorono ou se edifico,

se permaneço ou me desfaço,

– não sei, não sei. Não sei se fico

ou passo.
.
.
Sei que canto. E a canção é tudo.

Tem sangue eterno a asa ritmada.

E um dia sei que estarei mudo:

– mais nada.
.

.
Cecília Meireles

Não
Novembro 3, 2019

Não dançarei ao ritmo do seu tambor de guerra.
Não entregarei a minha alma e os meus ossos ao tambor da guerra.
Não dançarei ao seu ritmo.
Conheço esse ritmo, é um ritmo sem vida.

Conheço muito bem essa pele que vocês golpeiam.
Ainda fiquei viva depois de perseguida, roubada, expandida.
Não dançarei ao ritmo do seu tambor de guerra.
Não vou odiar por vossa conta, nem sequer vos vou odiar.

Não vou matar por vossa conta. E não vou morrer por vocês.
Não vou chorar a morte com assassínios nem suicídio.
Não dançarei com bombas só porque os outros estão a dançar.
Podem estar todos enganados.

A vida é um direito, não um dano colateral ou casual.
Não me esquecerei de onde venho, tocarei o meu tambor.
Reunirei os meus amados e o nosso canto será dança.
O nosso zumbido será o ritmo. Não serei enganada.

Não emprestarei o meu nome nem o meu ritmo ao vosso som
Dançarei e resistirei, dançarei e continuarei e dançarei
Este bater do meu coração soa mais forte do que a morte
O vosso tambor de guerra não soará mais forte do que o meu alento.

Suheir Hammad

E de novo
Outubro 28, 2019

E de novo a armadilha dos abraços.

E de novo o enredo das delícias.

O rouco da garganta, os pés descalços

a pele alucinada de carícias.

.

As preces, os segredos, as risadas

no altar esplendoroso das ofertas.

De novo beijo a beijo as madrugadas

de novo seio a seio as descobertas.

.

Alcandorada no teu corpo imenso

teço um colar de gritos e silêncios

a ecoar no som dos precipícios.

.

E tudo o que me dás eu te devolvo

E fazemos de novo, sempre novo

o amor total dos deuses e dos bichos.

coração 3

Rosa Lobato de Faria

Destino 4
Outubro 22, 2019

Não te amei sob as árvores.

Nem bebi a tua boca ao pé das fontes.

Respirei-te, na tarde,

quando as sombras do outono

desciam, rápidas, sobre mim.

???????????????????????????????

Luísa Dacosta

Esperança amorosa
Outubro 16, 2019

Grato silêncio, trémulo arvoredo,
sombra propícia aos crimes e aos amores.
Hoje serei feliz! – Longe, temores,
longe, fantasmas, ilusões do medo.
.
Sabei, amigos Zéfiros, que cedo
entre os braços de Nise, entre estas flores,
furtivas glórias, tácitos favores,
hei-de enfim possuir: porém, segredo!
.
Nas asas frouxos ais, brandos queixumes
não leveis, não façais isto patente,
quem nem quero que o saiba o pai dos numes.
.
Cale-se o caso a Jove omnipotente,
porque, se ele o souber, terá ciúmes,
vibrará contra mim seu raio ardente…

Bocage

Canção da breve serenidade
Outubro 10, 2019

chuva

Ouço a chuva cair. Olho as ruas molhadas.

Penso nas violetas e nos jardins em flor.

Desce ao meu coração uma paz sem memória.

Desce ao meu coração uma doçura imensa…

.

Lembro o amor a dormir tranquilo e sossegado

A rua esquiva e sem pregões, a rua pobre,

a rua humilde e a casa pequenina, em que se abriga

Lembro a infância que foi e outras manhãs já longe.

.

Sinto a vida como a chuva descendo

sobre os quietos beirais, sobre as ruas, descendo.

Sinto que o tempo é bom porque não pára nunca.

.

Um ritmo de abrigo envolve as coisas, tudo,

vontade de dormir o grande sono calmo

ouvindo a chuva triste e mansa a descer sobre mim.

Augusto Frederico Schmidt

Dias há
Setembro 29, 2019

Dias há,

em que o teu sorriso

é uma ilha perdida dentro de mim

e o teu nome

o vento que muda as estrelas

para o dorso das andorinhas.

.

Dias há,

em que procuro os teus olhos

e silenciosamente te digo “meu amor”,

como se eles fossem peixes

e as palavras animais estranhos

capazes de turvar a paz

das grandes profundidades.

Risco

Isabel Meyrelles

A minha secretária
Setembro 20, 2019

Tenho um ramo

de nuvens

na minha secretária

.

por entre versos

cartas

cadernos e diários

.

uma caneta

com tinta de gardénia

de paixão e soneto

.

E na gaveta de segredo

porque

a poesia salva

.

eu guardo a minha alma

despertares

Maria Teresa Horta

Silêncio
Setembro 12, 2019

Sem que eu soubesse,
as coisas não ditas haviam crescido
como cogumelos venenosos
nas paredes do silêncio.

 Lya Luft     em    O Silêncio dos Amantes