Archive for the ‘poesia, poemas, amor, pensamentos’ Category

Cada um cumpre o destino que lhe cumpre
Agosto 20, 2019

Cada um cumpre o destino que lhe cumpre.
E deseja o destino que deseja;
nem cumpre o que deseja,
nem deseja o que cumpre.

Como as pedras na orla dos canteiros
o Fado nos dispõe, e ali ficamos;
que a Sorte nos fez postos
onde houvemos de sê-lo.

Não tenhamos melhor conhecimento
do que nos coube que de que nos coube.
Cumpramos o que somos.
Nada mais nos é dado.

soledad_y_tristeza_by_magdalena220
29-7-1923

Ricardo Reis

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percurso(s)
Agosto 10, 2019

faço parte de um percurso

entre o corpo quente de minha mãe e a terra fria de meu pai

não sei em que ponto da viagem estou

ou sequer se a viagem é curta ou ainda longa

tenho pó nos sapatos, mas as solas não estão gastas

já tenho rugas no rosto e marcas no corpo e no coração

mas ainda terei mais e mais

já caí e já me levantei várias vezes

e continuarei a cair,

esperando levantar-me,

ao menos um dia

Estou em viagem, em trânsito

e estar assim cansa, desilude, apeia

mas também impele, resiste e…

.

é a eterna obrigação da existência

entre dois pontos

ou muitos mais

entre pólos de energias variáveis

que afundam e emergem

que submergem e salvam

.

anda daí e junta o teu alforge ao meu

DSCN0713

André Lamas Leite

As Coisas
Agosto 3, 2019

Por aqui, por ali, à minha volta,

sobem montanhas de coisas antigas,

são quadros, são caixinhas, e das vigas

balançam fardas velhas de uma escolta.

.

Bengalas bem talhadas, uma ânfora,

trazem letras trançando-se sem nome,

nomes voam sem dono e a hora some

de um pêndulo em que o dobre cheira a cânfora.

.

Caveiras de marfim, pequenas tíbias,

ossinhos despojados de oratórios,

cachinhos e navetas e ostensórios,

tapetes que suspiram poeiras líbias,

.

junto a um nobre enrolado numa toga

cujo pano desfez-se em bronze velho

e que canta sem voz num vão de espelho

à luz de um castiçal de sinagoga,

.

enquanto um buda branco brilha e ri

e os meus olhos que bóiam numa taça

vão colhendo na sede do que passa

as flores que eu sonhei que já perdi.

intuition

Alexei Bueno

 

Soneto do Corifeu
Julho 25, 2019

São demais os perigos desta vida
para quem tem paixão, principalmente,
quando uma lua surge de repente
e se deixa no céu, como esquecida.
.
E se ao luar que atua desvairado
vem se unir uma música qualquer,
aí então é preciso ter cuidado
porque deve andar perto uma mulher.
.
Deve andar perto uma mulher que é feita
de música, luar e sentimento
e que a vida não quer, de tão perfeita.
.
Uma mulher que é como a própria Lua:
tão linda que só espalha sofrimento,
tão cheia de pudor que vive nua.

Vinicius de Moraes

A verdadeira mão
Julho 18, 2019

A verdadeira mão que o poeta estende
não tem dedos:
é um gesto que se perde
no próprio acto de dar-se

O poeta desaparece
na verdade da sua ausência
dissolve-se no biombo da escrita

O poema é
a única
a verdadeira mão que o poeta estende

E quando o poema é bom
não te aperta a mão:
aperta-te a garganta

ANA HATHERLY | O Pavão Negro (2003)

Mecânica de um abraço
Julho 11, 2019

O que encerras num abraço quando
abraças alguém não é
um corpo: é o tempo. Nesse demorar suspenso
(enquanto deténs outra vida) há
um corpo que é teu enquanto o reténs
nos braços
(porquanto o tens para ti
suspendendo o movimento)
enquanto páras o tempo pelo
tempo
de um abraço. Mas a
força dos teus abraços é mais fraca
que a do tempo e
tens de ser tu a ceder
(tens de ser tu a largar) porque
o tempo não aceita estar parado tanto tempo e
exige que o soltes para
tornar ao movimento.

abraco1

João Luís Barreto Guimarães    em   Nómada

Como na montanha
Julho 3, 2019

Não me perguntes nada. Só teus olhos

olhando-me, respondam confiados.

E tuas mãos, sentindo os meus cuidados,

saibam trazer promessas e consolos.

.

Ou diz, pois oiço tudo. A tua voz

é fluxo mineral, nem é palavras,

tal, na montanha, sebes, trilhos, lavras:

malhas na pele de um ser grande, feroz.

.

Viver é isto, como, na montanha,

o sol, as estações, que vêm, que vão,

um sono onde trabalha mão estranha,

.

urdindo sonhos e destruição.

Por isso, não perguntes. Tua mão

se pouse em mim, com o olhar me banha.

agreste

Ricardo Lima

A um carvalho
Junho 26, 2019

Forte como um destino,

calmo como um pastor,

a sarça ardente é quando o sol a pino

o inunda de seiva e de calor.

Barbas, rugas e veias de gigante,

mas, sobretudo, braços!

Largos e negros, de desmedidos traços,

gestos solenes de uma fé constante.

Árvore e banco

Miguel Torga

Mar adentro
Junho 16, 2019

Deixarei vento trazer areia molhada

moldando dunas sobre a praia peito

lençóis marinhos de bruma salgada

cobrindo-me vagas em húmido leito

.

Deixarei o sol aquecer a azul manta

brilho líquido sobre ninho aquático

cobertas de espuma brancura tanta

onda em fúria doce marear estático

.

Deixarei o céu fazer-se em mim mar

vaga mais rebelde possa acontecer

todos os sentidos me deixe libertar

em onda gigante na praia eu morrer

.

Vento chuva como lágrimas maresia

na morna loucura desta praia deserta

possam murmúrios mar ser sinfonia

.

A praia sentida num olhar imensidão

Vaga uma a uma murmura secreta

Mar adentro em mim húmida solidão

asruasdopensamento

Ana Bárbara de Santo António

 

Balança
Junho 7, 2019

Com pesos duvidosos me sujeito
à balança até hoje recusada.
É tempo de saber o que mais vale:
se julgar, assistir, ou ser julgado.

Ponho no prato raso quanto sou,
matérias, outras não, que me fizeram,
o sonho fugidiço, o desespero
de prender violento ou descuidar

a sombra que me vai medindo os dias;
ponho a vida tão pouca, o ruim corpo,
traições naturais e relutâncias,
ponho o que há de amor, a sua urgência

o gosto de passar entre as estrelas,
a certeza de ser que só teria
se viesses pesar-me, poesia.

escultura-em-papel

José Saramago   em   Os Poemas Possíveis