Archive for the ‘Poesia’ Category

O Vento
Agosto 15, 2017

O cipreste inclina-se em fina reverência
e as margaridas estremecem, sobressaltadas.

A grande amendoeira consente que balancem
suas largas folhas transparentes ao sol.

Misturam-se uns aos outros, rápidos e frágeis,
os longos fios da relva, lustrosos, lisos cílios verdes.

Frondes rendadas de acácias palpitam inquietantemente
com o mesmo tremor das samambaias
debruçadas nos vasos.

Fremem os bambus sem sossego,
num insistente ritmo breve.

O vento é o mesmo:
mas sua resposta é diferente, em cada folha.

Somente a árvore seca fica imóvel,
entre borboletas e pássaros.

Como a escada e as colunas de pedra,
ela pertence agora a outro reino.
Se movimento secou também, num desenho inerte.
Jaz perfeita, em sua escultura de cinza densa.

O vento que percorre o jardim
pode subir e descer por seus galhos inúmeros:

ela não responderá mais nada,
hirta e surda, naquele verde mundo sussurrante.

Cecília Meireles    em     “Mar Absoluto”

Podia ter sido
Julho 1, 2017

Podia ter sido o amor se não tivesse vindo
tão directamente da sede
um duplo rosto de enganos e os braços
que saíram desertos
o eco da morte reverbera na pele
com que vejo a tua ausência encher as ruas
um choro de papel cai pela terra
e nunca foi tão tarde ser depois.

olho-200

Pedro Sena-Lino

Felicidades
Maio 25, 2017

não percas tempo
com os fragmentos
jamais refarás
o que se quebrou

tu já não és tu
nada é o que já foi
nada será o que
podia ter sido

há um começo tardio
para um final próximo
é essa a estória do depois

é tarde muito tarde
longe vão as manhãs
só te resta esperar
e reaprender os dias

felicidades
flores 4

A. H. Cravo

Quando eu morrer
Julho 4, 2016

Quando eu morrer quero as tuas mãos nos meus olhos:
quero a luz e o trigo das tuas mãos amadas
passando uma vez mais sobre mim sua frescura:
sentir a suavidade que mudou o meu destino.
.
Quero que vivas enquanto eu, adormecido, te espero,
quero que teus ouvidos sigam ouvindo o vento,
que sintas o perfume do mar que amamos juntos
e que sigas pisando a areia que pisamos.
.
Quero que o que amo continue vivo
e a ti amei e cantei sobre todas as coisas,
por isso segue tu florescendo, florida,

para que alcances tudo o que meu amor te ordena,
para que passeie minha sombra por teus cabelos,
para que assim conheçam a razão do meu canto.

Neruda
Pablo Neruda    em  Cem Sonetos de Amor

 

Dies Irae
Novembro 2, 2015

Apetece cantar, mas ninguém canta.
Apetece chorar, mas ninguém chora.
Um fantasma levanta
a mão do dedo sobre a nossa hora.
.
Apetece gritar, mas ninguém grita.
Apetece fugir, mas ninguém foge.
Um fantasma limita
todo o futuro a este dia de hoje.
.
Apetece morrer, mas ninguém morre.
Apetece matar, mas ninguém mata.
Um fantasma percorre
os motivos onde a alma se arrebata.
.
Oh! Maldição do tempo em que vivemos,
sepultura de grades cinzeladas
que deixam ver a vida que não temos
e as angústias paradas.

.
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Miguel Torga

Poesia
Outubro 19, 2015

Onde a poesia se exibe como um espectáculo espectacular
não é poesia
onde a audácia do poema não é única
não é poesia
onde a poesia não é inocência de natureza fluvial
não é poesia
onde a poesia não é escandalosamente pura
não é poesia
onde a poesia não é filha do deserto nem da sede
não é poesia
onde a poesia não é presença viva que nasce da solidão e da ausência
não é poesia
onde a poesia não se oferece no seu abandono
não é poesia

.
Onde a poesia não é poesia
não é poesia

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António Ramos Rosa

Passagem do outro lado
Outubro 1, 2015

Somos confusos como as florestas.
.
Tu, e eu (e todos nós),
temos enredos na voz,
armaduras e espessuras
que nos encobrem de nós.
.
Anda.
Percorre-me sem desvios,
inteira, plena, despida,
infância desprevenida
sem roupas e sem atavios.
.
Anda.
Rasga esta verde espessura
com os teus gestos afiados.
Insinua-te, procura,
derrama a tua brancura
nos trilhos enviesados.
Progride e canta. Penetra
neste matagal bravio,
desembrulhada e erecta
como a vela dum navio.
Singra, desliza suave
como gota que escorresses,
como luar que batesses,
penugem que esvoaçasses.
.
Entra e serve-te. Verás,
ou caídos ou suspensos,
frutos de aromas intensos

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que em silêncio morderás.
Teus dentes lhe darão sumo,
teus lábios lhe darão gosto
e o veludo que presumo
macio como o teu rosto.
.
Tuas mãos os farão belos
e alegres como facetas,
verdes, azuis, amarelos,
vermelhos e violetas.
.
De um arrepio, na espessura,
toda a floresta estremece.
Eu dou-te a minha loucura.
Dá-me o canto que a adormece.

António Gedeão

A mulher mais bonita
Agosto 21, 2015

estás tão bonita hoje.
quando digo que nasceram flores novas na terra do jardim,
quero dizer que estás bonita.

entro na casa, entro no quarto, abro o armário, abro uma gaveta, abro uma caixa onde está o teu fio de ouro.

entre os dedos, seguro o teu fino fio de ouro, como se tocasse a pele do teu pescoço.

há o céu, a casa, o quarto, e tu estás dentro de mim.

estás tão bonita hoje.

os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios.

estás dentro de algo que está dentro de todas as coisas, a minha voz nomeia-te para descrever a beleza.

os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios.

de encontro ao silêncio, dentro do mundo, estás tão bonita é aquilo que quero dizer.

José Luís Peixoto, em “A Casa, a Escuridão”

Todas as palavras
Agosto 7, 2015

As que procurei em vão,

principalmente as que estiveram muito perto,

como uma respiração,

e não reconheci,

ou desistiram e

partiram para sempre,

deixando no poema uma espécie de mágoa

como uma marca de água impresente ;

as que (lembras-te?) não fui capaz de dizer-te

nem foram capazes de dizer-me ;

as que calei por serem muito cedo,

e as que calei por serem muito tarde,

e agora, sem tempo, me ardem ;

as que troquei por outras (como poderei

esquecê-las desprendendo-se longamente de mim?);

as que perdi, verbos e

substantivos de que

por um momento foi feito o mundo.

E também aquelas que ficaram,

por cansaço, por inércia, por acaso,

e com quem agora, como velhos amantes sem

desejo, desfio memórias,

as minhas últimas palavras.

dia-da-saudade

Manuel António Pina

Carta ao Filho
Julho 19, 2015

Não vivas sobre a terra como um estranho,
um turista no meio da natureza.
Habita o mundo como a casa do teu pai.
Crê na semente, na terra, no mar.
mas acima de tudo crê nas pessoas.
Ama as nuvens,
as máquinas,
os livros,
mas acima de tudo ama o homem.
Sente a tristeza do ramo que murcha,
do astro que se extingue,
do animal ferido que agoniza,
mas acima de tudo
sente a tristeza e a dor das pessoas.
Alegra-te com todos os bens da terra,
com a sombra e a luz,
com as quatro estações,
mas acima de tudo e a mãos cheias
alegra-te com as pessoas.

Nazim Hikmet

A @[100000063776644:2048:Cristina Carmona-Franz] pediu-me que postasse um poema e indicasse 4 amigos. A minha escolha é a seguinte:  Porque creio que são estes os valores a passar aos nossos filhos. Boa noite, com Nazim Hikmet heart emoticon  CARTA AO FILHO  Não vivas sobre a terra como um estranho Um turista no meio da natureza. Habita o mundo como a casa do teu pai. Crê na semente, na terra, no mar. mas acima de tudo crê nas pessoas. Ama as nuvens, as máquinas, os livros, mas acima de tudo ama o homem. Sente a tristeza do ramo que murcha, do astro que se extingue, do animal ferido que agoniza, mas acima de tudo Sente a tristeza e a dor das pessoas. Alegra-te com todos os bens da terra, Com a sombra e a luz, com as quatro estações, mas acima de tudo e a mãos cheias alegra-te com as pessoas.  Nazim Hikmet  E o nome dos amigos que indico são: @[100006520182784:2048:Julia Teixeira] , Teresa Pereira , Conceição Militão e @[1370736139:2048:Conceição Cabeças]