Archive for the ‘Poesia’ Category

A criança que fui
Julho 31, 2020

A criança que fui chora na estrada.
deixei-a ali quando vim ser quem sou;
mas hoje, vendo que o que sou é nada,
quero ir buscar quem fui onde ficou.

Ah, como hei-de encontrá-lo? Quem errou
a vinda tem a regressão errada.
Já não sei de onde vim nem onde estou.
De o não saber, minha alma está parada.

Se ao menos atingir neste lugar
um alto monte, de onde possa enfim
o que esqueci, olhando-o, relembrar,

na ausência, ao menos, saberei de mim,
e, ao ver-me tal qual fui ao longe, achar
em mim um pouco de quando era assim.

crianca4[1]

Fernando Pessoa

No teu rosto
Julho 16, 2020

No teu rosto
competem mil madrugadas
Nos teus lábios
a raiz do sangue
procura suas pétalas
A tua beleza
é essa luta de sombras
é o sobressalto da luz
num tremor de água
é a boca da paixão
mordendo o meu sossego
.
laetitia_casta_9-1024x768
.
Mia Couto

Um não acabar mais
Julho 1, 2020

Sou quem sou.
Um acaso inconcebível
como todos os acasos.
.
Outros antepassados
poderiam, afinal, ser os meus,
e então de outro ninho
sairia voando,
de debaixo de outro tronco
rastejaria, coberta de escamas.
.
No guarda-roupa da Natureza
há trajes de sobra:
o traje da aranha, da gaivota, do rato do campo.
Cada um assenta de imediato que nem uma luva
e usa-se obedientemente
até se gastar por completo.
.
Eu tampouco tive alternativa,
mas não me queixo.
Poderia ser alguém
muito menos individual.
Alguém do cardume, do formigueiro, do enxame zuninte,
uma partícula de paisagem agitada pelo vento.
.
Alguém muito menos feliz,
criado para dar a pele,
para a mesa festiva,
ou algo que nadasse sob a lente.
.
Uma árvore presa à terra,
pela marcha dos acontecimentos inconcebíveis.
.
Um indivíduo nascido sob a estrela ruim
que para outros seria boa.
.
E que seria se despertasse nas pessoas medo?
Ou só aversão?
Ou só piedade?
.
Se não tivesse nascido
na tribo certa
e todos os caminhos se me fechassem?
.
Até agora, a sorte
mostrou-se-me favorável.
.
Poderia não ter-me sido dada
a recordação dos bons instantes.
.
Poderia ter-me sido negada
a tendência para comparar.
.
Poderia até ser eu própria
mas sem o dom da admiração,
quer dizer – alguém completamente diferente.

Wislawa Szymborska

Lágrima de preta
Junho 14, 2020

Encontrei uma preta
que estava a chorar,
pedi-lhe uma lágrima
para a analisar.
.
Recolhi a lágrima
com todo o cuidado
num tubo de ensaio
bem esterilizado.
.
Olhei-a de um lado,
do outro e de frente:
tinha um ar de gota
muito transparente.
.
Mandei vir os ácidos,
as bases e os sais,
as drogas usadas
em casos que tais.
.
Ensaiei a frio,
experimentei ao lume,
de todas as vezes
deu-me o que é costume:
.
nem sinais de negro,
nem vestígios de ódio.
Água (quase tudo)
e cloreto de sódio.
lágrima
António Gedeão

Acidentes de Guerra
Junho 7, 2020

Sacudo grão levíssimo
de cima do papel

Não sei se pó,
se uma pequena cinza
que assim se insinuou
neste caderno

a emoção, passado, defesa, antes na prateleira,
preso a outros cadernos, outros livros,
esquecido do olhar
e das pequenas emoções
de dentroÉ livre agora,
e o grão que projectei no ar
entre polegar e dedo médio em riste:
lança-chama de fluídos inflamáveis

com passado a assaltar,
sem defesa possível de vencer,
nem acertado alvo
que resista

livros 1

Ana Luísa Amaral    em    What’s In a Name

Na hora de pôr a mesa
Junho 1, 2020

Questões de princípio
Maio 25, 2020

Não me exijam
que diga
o que não digo

não queiram
que escreva
o meu avesso

não ordenem
que eu acene
o que recuso

não esperem
que me cale
e obedeça

suave

MARIA TERESA HORTA    em    ESTRANHEZAS (D. Quixote, 2018)

A um jovem poeta
Maio 13, 2020

 

Procura a rosa.
Onde ela estiver
estás tu fora
de ti. Procura-a em prosa, pode ser

que em prosa ela floresça
ainda, sob tanta
metáfora; pode ser, e que quando
nela te vires te reconheças

como diante de uma infância
inicial não embaciada
de nenhuma palavra
e nenhuma lembrança.

Talvez possas então
escrever sem porquê,
evidência de novo da Razão
e passagem para o que não se vê.

rosa aberta

Manuel António Pina     em     Nenhuma Palavra e Nenhuma Lembrança

Que tempo é este?
Maio 1, 2020

Dia após dia,

esta angústia cinzenta

de não saber o que virá…

.

Procuro no aparelho

o rasto dos amigos,

a razão da existência…

.

As notícias não acalmam,

embora não aturdam

como noutras paragens…

.

Que tempo é este,

escuro, traiçoeiro,

denso e impalpável?

.

As árvores esverdecem,

a Primavera chega,

mas o luto sobe em nós…

azul-e-verde

Diana Sá

 

Corpo de Ambiguidade
Abril 23, 2020

posso e não posso ir-me noite fora
nestes pilares do medo desta dor
– é quando os dedos ferem (não se tocam)
é quando hesito e coro

é quando vou não vou neste mergulho
em seco a imergir em pobre chão
de caos e flor e vinho e confusão

é quando sem chorar me escondo e choro

João Rui de Sousa   em   ‘Corpo Terrestre’