Archive for the ‘Poesia’ Category

Ensaia um sorriso
Janeiro 23, 2020

Ensaia um sorriso 
e oferece-o a quem não teve nenhum. 
Agarra um raio de sol 
e desprende-o onde houver noite. 
Descobre uma nascente 
e nela limpa quem vive na lama. 
Toma uma lágrima 
e pousa-a em quem nunca chorou. 
Ganha coragem 
e dá-a a quem não sabe lutar. 
Inventa a vida 
e conta-a a quem nada compreende. 
Enche-te de esperança 
e vive á sua luz. 
Enriquece-te de bondade 
e oferece-a a quem não sabe dar. 
Vive com amor 
e fá-lo conhecer ao Mundo.

Big heart

. Mahatma Gandhi    em    À Descoberta do Amor .

Regressarei
Janeiro 14, 2020

Eu regressarei ao poema como à pátria à casa

Como à antiga infância que perdi por descuido

Para buscar obstinada a substância de tudo

E gritar de paixão sob mil luzes acesas

crianca4[1]

Sophia de Mello Breyner Andresen

Germinação
Janeiro 7, 2020

Entre duas ruas paralelas
nossas conexões transversais aproximaram
o contato de nossos lábios e de nossas mãos
que se transformam em uma arte de expressão geométrica
com traços de cubismo:
vários vértices com sensações de infinitude
vários ângulos com encaixe de elevada estruturação

aprofundamos em anestesia
enquanto verticalizávamos nossos sentidos
investindo em uma profundidade de sentimentos superior
aos abismos de corações e mentes distraídas

nossa troca de olhares ficou surrealista:
teu cheiro penetrando em minhas vísceras
depositando em meu tecido adiposo
desregulando minha frequência cardíaca
com a profunda vibração de tuas cordas vocais
abraçando meu miocárdio

nossos corpos em contato se tornaram um único abrigo
nossa confluência de ideias formaram fortalezas de harmonia
nossa taxa metabólica igualou nossas funções vitais
e fomos capazes de rejuvenescer
simultaneamente
lado a lado

enquanto me abraçava revitalizando
cada célula corporal,
aprofundamos
ultrapassando os limites para mergulhos recreacionais

molhamo-nos ao toque do mar
secamo-nos à luz do sol
pulsantes:
amadurecemos em frutos

olhosnosolhos

Larissa Vahia

Dia
Janeiro 1, 2020

Mergulho no dia como em mar ou seda

Dia passado comigo e com a casa

Perpassa pelo ar um gesto de asa

Apesar de tanta dor e tanta perda

mulher 3

Sophia de Mello Breyner Andresen

Versos de Natal
Dezembro 25, 2019

Espelho, amigo verdadeiro,
tu refletes as minhas rugas,
os meus cabelos brancos,
os meus olhos míopes e cansados.
Espelho, amigo verdadeiro,
mestre do realismo exato e minucioso,
obrigado, obrigado!

Mas se fosses mágico,
penetrarias até o fundo desse homem triste,
descobririas o menino que sustenta esse homem,
o menino que não quer morrer,
que não morrerá senão comigo,
o menino que todos os anos na véspera do Natal
pensa ainda em pôr os seus chinelinhos atrás da porta.

Manuel Bandeira    em    “Lira dos cinquenta anos”, 1940

Não sei
Dezembro 17, 2019

Não sei se a vida é curta

ou longa para nós,

mas sei que nada

do que vivemos tem sentido,

se não tocarmos o coração das pessoas.

Muitas vezes basta ser:

o colo que acolhe,

o braço que envolve,

a palavra que conforta,

o silêncio que respeita,

a alegria que contagia,

a lágrima que corre,

o olhar que acaricia,

o desejo que sacia,

o amor que promove.

E isso não é coisa de outro mundo,

é o que dá sentido à vida.

É o que faz com que ela não

seja nem curta, nem longa demais,

mas que seja intensa, verdadeira,

pura enquanto durar.

abraço

Cora Coralina

agora
Dezembro 1, 2019

é uma vida inteira à procura

de outra pessoa maior do que tu

que acreditas escondida em ti

amanhã farás melhor

amanhã farás o que não fizeste

amanhã terás todos os olhos em ti

amanhã serás maior que a estrela maior

e amanhã já se passou tempo de ser

de aceitar isso que se é

o que és agora mesmo

agorinha

aqui mesmo

com os pés descalços sobre a areia que não é tua

mas sim, amanhã receberás um prémio por seres o que não és ou não consegues, ou não queres ser

amanhã ou daqui a dez anos

o que te garanto é que o que és, és agora.

pensativa

Franz E.

Mar
Novembro 23, 2019

Na melancolia de teus olhos

eu sinto a noite se inclinar

e ouço as cantigas antigas

do mar.

.

Nos frios espaços de teus braços

eu me perco em carícias de água

e durmo escutando em vão

o silêncio.

.

E anseio em teu misterioso seio

na atonia das ondas redondas

náufrago entregue ao fluxo forte

da morte.

Mar e rochas

Vinicius de Moraes

Motivo
Novembro 10, 2019

Eu canto porque o instante existe

e a minha vida está completa.

Não sou alegre nem sou triste

sou poeta.
.
.
Irmão das coisas fugidias,

não sinto gozo nem tormento.

Atravesso noites e dias

no vento.
.
.
Se desmorono ou se edifico,

se permaneço ou me desfaço,

– não sei, não sei. Não sei se fico

ou passo.
.
.
Sei que canto. E a canção é tudo.

Tem sangue eterno a asa ritmada.

E um dia sei que estarei mudo:

– mais nada.
.
gaivotas 3
.
Cecília Meireles

Não
Novembro 3, 2019

Não dançarei ao ritmo do seu tambor de guerra.
Não entregarei a minha alma e os meus ossos ao tambor da guerra.
Não dançarei ao seu ritmo.
Conheço esse ritmo, é um ritmo sem vida.

Conheço muito bem essa pele que vocês golpeiam.
Ainda fiquei viva depois de perseguida, roubada, expandida.
Não dançarei ao ritmo do seu tambor de guerra.
Não vou odiar por vossa conta, nem sequer vos vou odiar.

Não vou matar por vossa conta. E não vou morrer por vocês.
Não vou chorar a morte com assassínios nem suicídio.
Não dançarei com bombas só porque os outros estão a dançar.
Podem estar todos enganados.

A vida é um direito, não um dano colateral ou casual.
Não me esquecerei de onde venho, tocarei o meu tambor.
Reunirei os meus amados e o nosso canto será dança.
O nosso zumbido será o ritmo. Não serei enganada.

Não emprestarei o meu nome nem o meu ritmo ao vosso som
Dançarei e resistirei, dançarei e continuarei e dançarei
Este bater do meu coração soa mais forte do que a morte
O vosso tambor de guerra não soará mais forte do que o meu alento.

Suheir Hammad