Archive for the ‘saudade’ Category

Quem me quiser
Junho 17, 2015

Quem me quiser há-de saber as conchas
a cantiga dos búzios e do mar.
Quem me quiser há-de saber as ondas
e a verde tentação de naufragar.

Quem me quiser há-de saber as fontes,
a laranjeira em flor, a cor do feno,
a saudade lilás que há nos poentes,
o cheiro de maçãs que há no inverno.

Quem me quiser há-de saber a chuva
que põe colares de pérolas nos ombros,
há-de saber os beijos e as uvas,
há-de saber as asas e os pombos.

Quem me quiser há-de saber os medos
que passam nos abismos infinitos,
a nudez clamorosa dos meus dedos,
o salmo penitente dos meus gritos.

Quem me quiser há-de saber a espuma
em que sou turbilhão, subitamente
– ou então não saber coisa nenhuma
e embalar-me ao peito, simplesmente.

Rosa Lobato Faria

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Escreve-me
Junho 15, 2011

Escreve-me! Ainda que seja só
uma palavra, uma palavra apenas,
suave como o teu nome e casta
como um perfume casto d’açucenas!

Escreve-me! Há tanto, há tanto tempo
que te não vejo, amor! Meu coração
morreu já, e no mundo aos pobres mortos
ninguém nega uma frase d’oração!

“Amo-te!” Cinco letras pequeninas,
folhas leves e tenras de boninas,
um poema d’amor e felicidade!

Não queres mandar-me esta palavra apenas?
Olha, manda então…brandas…serenas…

cinco pétalas roxas de saudade…

Florbela Espanca

Em todas as ruas te encontro
Junho 12, 2011

Em todas as ruas te encontro

em todas as ruas te perco

Conheço tão bem o teu corpo

sonhei tanto a tua figura

que é de olhos fechados que eu ando

a limitar a tua altura

e bebo a água e sorvo o ar

que te atravessou a cintura

tanto tão perto tão real

que o meu corpo se transfigura

e toca o seu próprio elemento

num corpo que já não é seu

num rio que desapareceu

onde um braço teu me procura

Em todas as ruas te encontro

em todas as ruas te perco.

Mario Cesariny

A um livro
Abril 23, 2011

No silêncio de cinzas do meu Ser
agita-se uma sombra de cipreste,
sombra roubada ao livro que ando a ler,
a esse livro de mágoas que me deste.

Estranho livro aquele que escreveste,
artista da saudade e do sofrer!
Estranho livro aquele em que puseste
tudo o que eu sinto, sem poder dizer!

Leio-o, e folheio, assim, toda a minh’alma!
O livro que me deste é meu, e salma
as orações que choro e rio e canto!…

Poeta igual a mim, ai que me dera
dizer o que tu dizes! … Quem soubera
velar a minha Dor desse teu manto!…

Florbela Espanca, Livro de Mágoas

Sem depois
Fevereiro 4, 2011

Todas as vidas gastei para morrer contigo.

 

E agora

esfumou-se o tempo

e perdi o teu passo

para além da curva do rio.

 

Rasguei as cartas.

Em vão,

o papel restou intacto.

Só os meus dedos murcharam, decepados.

 

Queimei as fotos.

Em vão.

As imagens restaram incólumes,

e só os meus olhos se desfizeram

no dom das cinzas.

 

Com que roupa vestirei a minha alma

agora que já não há domingos?

Depois de te viver, não há poente.

Nem o enfim de um fim.

 

Todas as mortes gastei, para viver contigo.

 

Mia  Couto

Uma lágrima
Outubro 19, 2010

Encosto a cabeça no vidro.

Lá fora anoitece. A chuva cai, gélida.

Fico a olhar o horizonte longínquo.

Por momentos fecho os olhos, fico a pensar em ti,

e teimosamente uma lágrima corre pela minha face.

E outra e mais outra.

Abro os olhos e vejo-te. Estarás aí?

Sorris.

Sorrio.

Uma leve brisa passa pela minha face,

gelando as lágrimas que não deixam de correr.

Fecho os olhos mais uma vez.

Desapareces.

Carlota Pires Dacosta

Coisas
Setembro 30, 2010

Existem coisas que guardo para mim.

Existem coisas que não conto a ninguém,

eu as guardo para mim.

Eu as salvo do mundo,

as transformo em nós e laçadas

na medida em que teço o véu da memória.

Às vezes eu faço diamantes com elas…

Existem outras coisas também,

outras minhas,

essas são poesias.

Pedro Pizelli

Como só a ti amaria
Setembro 18, 2010

Vieste sem te anunciares,

sem que precisasse de ti,

sem sentir a tua falta,

de mansinho,

como uma brisa suave.

E quando pensei em ti

já aqui estavas,

já me faltavas,

já te queria beijar.

 

O meu coração fechado era aberto,

a minha vida contada estava em branco.

Haviam palavras por dizer,

mãos que tinham muito por tocar.

 

Acordei e descobri que te queria,

num desejo que é mais do que desejo.

Em cada carícia sobre a tua pele,

e em cada beijo demorado,

um desejo de ser profundo,

tão profundo quanto o mais profundo mar…

 

Em cada beijo demorado,

ser mais do que eu,

dar-te mais do que tenho,

misturar-me mais do que em ti,

sermos mais do que um.

 

A cada beijo demorado,

sermos mais do que nós,

vontade mais do que nossa,

de nos despirmos de tudo,

e encontrar no fundo do olhar

o que existe para além de nós que nos tocamos.

 

A cada beijo amar-te a ti,

como só a ti amaria,

nem que para isso só tivesse este momento.

 

Ah! Quem te colocou no meu caminho?

João Tiago

Tu já me arrumaste
Setembro 9, 2010

Tu já me arrumaste no armário dos restos

eu já te guardei na gaveta dos corpos perdidos

e das nossas memórias começamos a varrer

as pequenas gotas de felicidade

que já fomos.

Mas no tempo subjectivo

tu és ainda o meu relógio de vento

a minha máquina aceleradora de sangue

e por quanto tempo ainda

as minhas mãos serão para ti

o nocturno passeio do gato no telhado?

Isabel Meyrelles

Amar
Julho 8, 2010

Passei toda a noite, sem dormir, vendo, sem espaço, a figura dela,
e vendo-a sempre de maneiras diferentes do que a encontro a ela.
Faço pensamentos com a recordação do que ela é quando me fala,
e em cada pensamento ela varia de acordo com a sua semelhança.
Amar é pensar.
E eu quase que me esqueço de sentir só de pensar nela.
Não sei bem o que quero, mesmo dela, e eu não penso senão nela.
Tenho uma grande distracção animada.
Quando desejo encontrá-la
quase que prefiro não a encontrar,
para não ter que a deixar depois.
Não sei bem o que quero, nem quero saber o que quero. Quero só pensar nela.
Não peço nada a ninguém, nem a ela, senão pensar.

Alberto Caeiro