Cantiga, partindo-se

Março 19, 2018 - Leave a Response

Senhora, partem tão tristes
meus olhos por vós, meu bem,
que nunca tão tristes vistes
outros nenhuns por ninguém

Tão tristes, tão saudosos,
tão doentes da partida,
tão cansados, tão chorosos,
da morte mais desejosos
cem mil vezes que da vida.

Partem tão tristes os tristes,
tão fora de esperar bem,
que nunca tão tristes vistes
outros nenhuns por ninguém.

adeus

João Roiz de Castel-Branco

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Dia

Março 12, 2018 - Leave a Response

O dia foi de chumbo em sua mansa calma.

E foi um rio bem fundo em que as palavras,

à partida discretas, mais pesaram.

E a morte percutiu (coexistiu)

num gume de espada incendiada.

E as pedras afluíram (confluíram)

num sulfuroso rosto à beira d’água.

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João Rui de Sousa

Devagar te amo

Março 6, 2018 - Leave a Response

Devagar te amo, e devagar assomo
os dedos à altura dos olhos, do cabelo
dos anéis de outro turno, que é só meu
por querê-lo, meu amor, como a ti mesma quero
nos tempos de passado e sem futuro.
Devagar avanço um dealbar de dias
que vida seriam – mesmo que morto, à noite,
eu voltasse amargurado mas presente,
calado e quedo, e devagar amando.

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Pedro Tamen      em    “Rua de Nenhures”.

Morrer dentro de ti

Fevereiro 28, 2018 - Leave a Response

Morar dentro de ti como eu gostava
dormir sempre em teu peito bom seria
fazer da tua boca a minha casa
com varandas suspensas de alegria

Morar dentro de ti já me bastava
para esquecer o mundo num só dia

Fazer das tuas mãos essa passagem
que me leva num sonho sobre a água
Dos teus olhos de luz fazer a margem
onde possa ancorar a minha mágoa

Fazer das tuas mãos essa viagem
que mora além da dor, além da mágoa

Sós, na asa dum céu que nos abrace
Sós, na vida dos sonhos mais ardentes
Sem que ninguém amor nos alcançasse
onde os lábios se queimem inocentes

Quero morar amor dentro de ti
onde somente nós dois nos entendemos
para morrer amor dentro de ti
bem lá longe do mundo onde vivemos
mulher 1

Fernando Campos de Castro

A um ti que eu inventei

Fevereiro 22, 2018 - Leave a Response

Pensar em ti é coisa delicada.

É um diluir de tinta espessa e farta

e o passá-la em finíssima aguada

com um pincel de marta.

.

Um pesar grãos de nada em mínima balança,

um armar de arames cauteloso e atento,

um proteger da chama contra o vento,

pentear cabelinhos de criança.

.

Um desembaraçar de linhas de costura,

um correr sobre lã que ninguém saiba ou oiça,

Um planar de gaivota como um lábio a sorrir.

.

Penso em ti com tamanha ternura

como se fosses vidro ou película de loiça

que apenas com o pensar te pudesses partir.

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António Gedeão

espelho

Fevereiro 16, 2018 - Leave a Response

espelho, és a terra onde as raízes rebentam de mistérios.

repetes as perguntas que te faço, porquê?, repetes

os olhares sem fim das coisas paradas. repetes o meu olhar.

espelho, és a parede e a pele cansada, és um silêncio a morrer a noite,

és o que ninguém quer, a verdade mais triste e cansada por dentro.

repetes as perguntas que te faço, porquê?, repetes

a desgraça, a miséria e o desespero.

espelho, quis conhecer-te e perdi-me de ti.

espelho

José Luís Peixoto

Estrada

Fevereiro 10, 2018 - Leave a Response

A tua história entristece-me…

À luz do que sei hoje,

a sombra de uma censura escurece

o longo rol de problemas

que vivemos há uma eternidade.

Desconheci-a muito tempo.

Não entendia o teu rancor.

Depois, que fazer da estrada rota

que vai de mim a ti?

.

Como posso mostrar-te o que me aflige

se as minhas tentativas acabam

numa parede de aço

erguida entre nós?

Navego às cegas entre ondas vigorosas

e vagas de calmaria.

Não consigo avaliar se

e quanto precisas de mim.

Ajudas-me?

nevoeiro

Diana Sá

Soneto de Véspera

Fevereiro 9, 2018 - Leave a Response

Quando chegares e eu te vir chorando

de tanto te esperar, que te direi?

E da angústia de amar-te, te esperando

reencontrada, como te amarei?

.

Que beijo teu de lágrimas terei

Para esquecer o que vivi lembrando

e que farei da antiga mágoa quando

não puder te dizer por que chorei?

.

Como ocultar a sombra em mim suspensa

pelo martírio da memória imensa

que a distância criou – fria de vida

.

imagem tua que  eu compus serena

atenta ao meu apelo e à minha pena

e que quisera nunca mais perdida…

pensativa

Vinicius de Moraes

Tudo

Fevereiro 3, 2018 - Leave a Response

Tudo –
palavra atrevida e enfunada de soberba.
Deveria escrever-se entre aspas.
Aparenta nada omitir,
tudo reunir, abarcar, conter e ter.
Porém, não é mais
do que um farrapo do caos.

Wislawa Szymborska

Marco

Janeiro 28, 2018 - Leave a Response

Na rua escondida

o marco do correio

há muitos anos recebe

as escassas cartas

que mudam a vida.

Há muito que está

fora de serviço

mas a companhia

não informou ninguém.

hug

Pedro Mexia