Poesia

Outubro 6, 2017 - Leave a Response

 

Gastei uma hora pensando um verso

que a pena não quer escrever,

no entanto ele está cá dentro

inquieto, vivo.

Ele está cá dentro

e não quer sair.

Mas a poesia deste momento

inunda minha vida inteira.

escrita

Carlos Drummond de Andrade

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Pavio

Setembro 28, 2017 - Leave a Response

cora

 

És uma candeia ao canto do quarto
às vezes longe, às vezes perto.
Trazes o brilho e a coragem,
demonstras a fé nesta viagem…

– E eu estou aqui deitado,
às vezes ao frio, às vezes tapado
(cresce em mim a tempestade)
– Aqueço assim a saudade.

E no frio desta caverna
húmida e teimosamente eterna,
pingo a pingo, hoje, amanhã e depois,
lembro as vidas que não tivemos os dois.
Apenas este pavio
veio acalmar este frio
nas mãos, na mente e na alma.
Uma voz suave que acalma…

Cêra.
Quimera.
Sonho.
Coração tamanho.

António

Ao longe, ao luar

Setembro 22, 2017 - Leave a Response

Ao longe, ao luar,
no rio, uma vela
serena a passar
que é que me revela?
.
Não sei, mas meu ser
tornou-se-me estranho
e eu sonho sem ver
os sonhos que tenho.
.
Que angústia me enlaça?
Que amor não se explica?
É vela que passa
na noite que fica.

barco 2

Fernando Pessoa

O último Poema

Setembro 16, 2017 - Leave a Response

Assim eu quereria meu último poema

Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais

Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas

Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume

A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos

A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.

Flores.png

Manuel Bandeira    em   Estrela da Vida Inteira- poesias reunidas

Estranho mal

Setembro 9, 2017 - Leave a Response

Procuro o Paraíso.

e nasce, em mim, a mágoa.

Estranho mal o meu,

o mal da poesia!

Surdez de não ouvir senão a água…

Cegueira de não ver senão o dia.

pedro-homem-de-mello-blogue

Pedro Homem de Mello    em    “Expulsos do governo da cidade

Bilhete

Setembro 3, 2017 - Leave a Response

Se tu me amas, ama-me baixinho.
Não o grites de cima dos telhados.

Deixa em paz os passarinhos.
Deixa em paz a mim!
Se me queres,
enfim,
tem de ser bem devagarinho, Amada,
que a vida é breve, e o amor mais breve ainda…

Mário Quintana

Há palavras que nos beijam

Agosto 26, 2017 - Leave a Response

Há palavras que nos beijam

como se tivessem boca.

Palavras de amor, de esperança,

de imenso amor, de esperança louca.

.

Palavras nuas que beijas

quando a noite perde o rosto ;

palavras que se recusam

aos muros do teu desgosto.

.

De repente coloridas

entre palavras sem cor,

esperadas, inesperadas,

como a poesia e o amor.

.

( O nome de quem se ama

letra a letra revelado

no mármore distraído

no papel abandonado.)

.

Palavras que nos transportam

aonde a noite é mais forte,

ao silêncio dos amantes

abraçados contra a morte.

now

Alexandre O’Neill

O Vento

Agosto 15, 2017 - Leave a Response

O cipreste inclina-se em fina reverência
e as margaridas estremecem, sobressaltadas.

A grande amendoeira consente que balancem
suas largas folhas transparentes ao sol.

Misturam-se uns aos outros, rápidos e frágeis,
os longos fios da relva, lustrosos, lisos cílios verdes.

Frondes rendadas de acácias palpitam inquietantemente
com o mesmo tremor das samambaias
debruçadas nos vasos.

Fremem os bambus sem sossego,
num insistente ritmo breve.

O vento é o mesmo:
mas sua resposta é diferente, em cada folha.

Somente a árvore seca fica imóvel,
entre borboletas e pássaros.

Como a escada e as colunas de pedra,
ela pertence agora a outro reino.
Se movimento secou também, num desenho inerte.
Jaz perfeita, em sua escultura de cinza densa.

O vento que percorre o jardim
pode subir e descer por seus galhos inúmeros:

ela não responderá mais nada,
hirta e surda, naquele verde mundo sussurrante.

Cecília Meireles    em     “Mar Absoluto”

Paisagem

Agosto 9, 2017 - Leave a Response

Cega-me a distância azul sem par
o gesto bondoso da sombra sobre o banco
a presença de algum deus sobre a paisagem
o silêncio íntimo da lonjura
um poema em estado bruto
na curva da viagem.

Maria Isabel Fidalgo

Eco

Agosto 2, 2017 - Leave a Response

Hoje, perguntando onde estás, e o

que fazes, ouço as palavras tristes

da solidão que me responde, sem

nada me dizer, ao dizer-me tudo.

.

O que fazes e onde estás, pergunto

ao silêncio que me deixaste, e ouço

em mim a resposta, num eco que

vem de ti, perguntando por mim.

.

E neste espelho que entre mim e ti

a ausência constrói, outro espelho

reflecte o vazio da sua imagem, até

.

esse infinito em que a minha pergunta

te responde, para que me devolvas

o eco em que as nossas vozes se juntam.

neblina

Nuno  Júdice