Canção da breve serenidade
Outubro 10, 2019

chuva

Ouço a chuva cair. Olho as ruas molhadas.

Penso nas violetas e nos jardins em flor.

Desce ao meu coração uma paz sem memória.

Desce ao meu coração uma doçura imensa…

.

Lembro o amor a dormir tranquilo e sossegado

A rua esquiva e sem pregões, a rua pobre,

a rua humilde e a casa pequenina, em que se abriga

Lembro a infância que foi e outras manhãs já longe.

.

Sinto a vida como a chuva descendo

sobre os quietos beirais, sobre as ruas, descendo.

Sinto que o tempo é bom porque não pára nunca.

.

Um ritmo de abrigo envolve as coisas, tudo,

vontade de dormir o grande sono calmo

ouvindo a chuva triste e mansa a descer sobre mim.

Augusto Frederico Schmidt

Interrogação
Setembro 4, 2018

Não sei se isto é amor. Procuro o teu olhar,
se alguma dor me fere, em busca de um abrigo;
e apesar disso, crê! nunca pensei num lar
onde fosses feliz, e eu feliz contigo.

Por ti nunca chorei nenhum ideal desfeito.
E nunca te escrevi nenhuns versos românticos.
Nem depois de acordar te procurei no leito
como a esposa sensual do Cântico dos cânticos.

Se é amar-te não sei. Não sei se te idealizo
a tua cor sadia, o teu sorriso terno…
Mas sinto-me sorrir de ver esse sorriso
que me penetra bem, como este sol de Inverno.

Passo contigo a tarde e sempre sem receio
da luz crepuscular, que enerva, que provoca.
Eu não demoro a olhar na curva do teu seio
nem me lembrei jamais de te beijar na boca.

Eu não sei se é amor. Será talvez começo…
Eu não sei que mudança a minha alma pressente…
Amor não sei se o é, mas sei que te estremeço,
que adoecia talvez de te saber doente.

© Matt Wisniewski

Camilo  Pessanha

 

As palavras que eu digo
Março 17, 2015


As palavras que eu digo
sobre o aroma das flores
são palavras às cores,
que na minha alma respiro
e é nelas que cheiro,
que recordo e que vivo.

Como marinheiro em terra preso,
em minha mente navego
nas memórias agitadas
por vagas de pensamentos
levadas pelos ventos
à terra dos sentimentos
no coração atracado.

Cada porto de abrigo
é uma história que se conta
de um homem nascido,
tendo tudo vivido
que se faz das palavras que eu digo.

José Maria Almeida

Quando o amor morrer dentro de ti
Abril 18, 2014

Quando o amor morrer dentro de ti,
caminha para o alto onde haja espaço,
e com o silêncio outrora pressentido
molda em duas colunas os teus braços.

.
Relembra a confusão dos pensamentos,
e neles ateia o fogo adormecido
que uma vez, sonho de amor, teu peito ferido
espalhou generoso aos quatro ventos.

.
Aos que passarem dá-lhes o abrigo
e o nocturno calor que se debruça
sobre as faces brilhantes de soluços.

.
E se ninguém vier, ergue o sudário
que mil saudosas lágrimas velaram;
desfralda na tua alma o inventário
do templo onde a vida ora de bruços
a Deus e aos sonhos que gelaram.

só

Ruy Cinatti,   em  “Obra Poética”

Despedida 2
Julho 4, 2010

Junho chegara ao fim, a magoada

luz dos jacarandás, que me pousava

nos ombros, era agora o que tinha

para repartir contigo,

e um coração desmantelado

que só aos gatos servirá de abrigo.

                                                      Eugénio de Andrade