Germinação
Janeiro 7, 2020

Entre duas ruas paralelas
nossas conexões transversais aproximaram
o contato de nossos lábios e de nossas mãos
que se transformam em uma arte de expressão geométrica
com traços de cubismo:
vários vértices com sensações de infinitude
vários ângulos com encaixe de elevada estruturação

aprofundamos em anestesia
enquanto verticalizávamos nossos sentidos
investindo em uma profundidade de sentimentos superior
aos abismos de corações e mentes distraídas

nossa troca de olhares ficou surrealista:
teu cheiro penetrando em minhas vísceras
depositando em meu tecido adiposo
desregulando minha frequência cardíaca
com a profunda vibração de tuas cordas vocais
abraçando meu miocárdio

nossos corpos em contato se tornaram um único abrigo
nossa confluência de ideias formaram fortalezas de harmonia
nossa taxa metabólica igualou nossas funções vitais
e fomos capazes de rejuvenescer
simultaneamente
lado a lado

enquanto me abraçava revitalizando
cada célula corporal,
aprofundamos
ultrapassando os limites para mergulhos recreacionais

molhamo-nos ao toque do mar
secamo-nos à luz do sol
pulsantes:
amadurecemos em frutos

olhosnosolhos

Larissa Vahia

Canção da breve serenidade
Outubro 10, 2019

chuva

Ouço a chuva cair. Olho as ruas molhadas.

Penso nas violetas e nos jardins em flor.

Desce ao meu coração uma paz sem memória.

Desce ao meu coração uma doçura imensa…

.

Lembro o amor a dormir tranquilo e sossegado

A rua esquiva e sem pregões, a rua pobre,

a rua humilde e a casa pequenina, em que se abriga

Lembro a infância que foi e outras manhãs já longe.

.

Sinto a vida como a chuva descendo

sobre os quietos beirais, sobre as ruas, descendo.

Sinto que o tempo é bom porque não pára nunca.

.

Um ritmo de abrigo envolve as coisas, tudo,

vontade de dormir o grande sono calmo

ouvindo a chuva triste e mansa a descer sobre mim.

Augusto Frederico Schmidt

Interrogação
Setembro 4, 2018

Não sei se isto é amor. Procuro o teu olhar,
se alguma dor me fere, em busca de um abrigo;
e apesar disso, crê! nunca pensei num lar
onde fosses feliz, e eu feliz contigo.

Por ti nunca chorei nenhum ideal desfeito.
E nunca te escrevi nenhuns versos românticos.
Nem depois de acordar te procurei no leito
como a esposa sensual do Cântico dos cânticos.

Se é amar-te não sei. Não sei se te idealizo
a tua cor sadia, o teu sorriso terno…
Mas sinto-me sorrir de ver esse sorriso
que me penetra bem, como este sol de Inverno.

Passo contigo a tarde e sempre sem receio
da luz crepuscular, que enerva, que provoca.
Eu não demoro a olhar na curva do teu seio
nem me lembrei jamais de te beijar na boca.

Eu não sei se é amor. Será talvez começo…
Eu não sei que mudança a minha alma pressente…
Amor não sei se o é, mas sei que te estremeço,
que adoecia talvez de te saber doente.

© Matt Wisniewski

Camilo  Pessanha

 

As palavras que eu digo
Março 17, 2015


As palavras que eu digo
sobre o aroma das flores
são palavras às cores,
que na minha alma respiro
e é nelas que cheiro,
que recordo e que vivo.

Como marinheiro em terra preso,
em minha mente navego
nas memórias agitadas
por vagas de pensamentos
levadas pelos ventos
à terra dos sentimentos
no coração atracado.

Cada porto de abrigo
é uma história que se conta
de um homem nascido,
tendo tudo vivido
que se faz das palavras que eu digo.

José Maria Almeida

Quando o amor morrer dentro de ti
Abril 18, 2014

Quando o amor morrer dentro de ti,
caminha para o alto onde haja espaço,
e com o silêncio outrora pressentido
molda em duas colunas os teus braços.

.
Relembra a confusão dos pensamentos,
e neles ateia o fogo adormecido
que uma vez, sonho de amor, teu peito ferido
espalhou generoso aos quatro ventos.

.
Aos que passarem dá-lhes o abrigo
e o nocturno calor que se debruça
sobre as faces brilhantes de soluços.

.
E se ninguém vier, ergue o sudário
que mil saudosas lágrimas velaram;
desfralda na tua alma o inventário
do templo onde a vida ora de bruços
a Deus e aos sonhos que gelaram.

só

Ruy Cinatti,   em  “Obra Poética”

Despedida 2
Julho 4, 2010

Junho chegara ao fim, a magoada

luz dos jacarandás, que me pousava

nos ombros, era agora o que tinha

para repartir contigo,

e um coração desmantelado

que só aos gatos servirá de abrigo.

                                                      Eugénio de Andrade