Breve poema da hora vã
Maio 1, 2017

Que poderei cantar-te nesta hora?

O século esgotou sua guitarra.

Não há surpresas nas sílabas de Abril.

Nem histórias para dizer.

.

Ainda se chovesse ou se caíssem rosas

para dentro do verbo

acontecer.

rosa gelada

Manuel  Alegre

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Noite de Abril
Abril 26, 2014

Hoje, noite de Abril, sem lua,

a minha rua

é outra rua.

.

Talvez por ser mais que nenhuma escura

e bailar o vento leste

a noite de hoje veste

as coisas conhecidas da aventura.

Foz

Uma rua nova destruiu a rua do costume.

Como se sempre nela houvesse este perfume

de vento leste e Primavera,

à sombra dos muros espera

.

alguém que ela não conhece.

E às vezes, o silêncio estremece

como se fosse a hora de passar alguém

que só hoje não vem.

.

Sophia de Mello Breyner Andersen

Amor combate
Abril 25, 2012

Meu amor que eu não sei.

Amor que eu canto. Amor que eu digo.

Teus braços são a flor do aloendro.

Meu amor por quem parto.

Por quem fico. Por quem vivo.

Teus olhos são da cor do sofrimento.

Amor – país.

Quero cantar-te. Como quem diz:

O nosso amor é sangue.

É seiva. É sol. É Primavera.

Amor intenso. Amor imenso. Amor instante.

O nosso amor é uma arma. É uma espera.

O nosso amor é um cavalo alucinante.

O nosso amor é pássaro voando. Mas à toa.

Rasgando o céu azul-coragem de  Lisboa.

Amor partindo. Amor sorrindo. Amor doendo.

O nosso amor é como a flor do aloendro.

Deixa-me soltar estas palavras amarradas

para escrever com sangue o nome que inventei.

Romper. Ganhar a voz duma assentada.

Dizer de ti as coisas que eu não sei.

Amor. Amor. Amor.

Amor de tudo ou nada.

Amor-verdade. Amor-cidade.

Amor-combate. Amor-abril.

Este amor de  liberdade.

Joaquim  Pessoa