Sete
Junho 6, 2017

Pelas sete da tarde

é que o sonho começa:

a tua mão na minha

e a minha cabeça

encostada ao teu ombro.

Depois é o assombro

do amor reencontrado

a sós no nosso canto.

O silêncio e o espanto

a paixão o segredo

a recusa do medo

o meu falar alegre

o teu livro tão sério

a música tão leve

o instante tão breve

o sono e o mistério.

.

Às sete da manhã

é que o sonho termina.

E afrontamos o dia

a tua mão na minha

um trejeito na alma

um tremido na boca

até que a multidão

me leva e me sufoca

e nos desprende e solta

os meus dedos nos teus.

.

Há um barco que chega

um comboio que chora.

Num mar de gente à deriva

eu náufraga da hora

ergo um braço no ar

p’ra te dizer adeus.

beijinho

Rosa Lobato de Faria

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2º Soneto de Amor da Hora Triste
Janeiro 11, 2017

 

Quando eu morrer – e hei-de morrer primeiro

do que tu – não deixes fechar-me os olhos

meu Amor. Continua a espelhar-te nos meus olhos

e ver-te-ás de corpo inteiro

.

como quando sorrias no meu colo.

E, ao veres que tenho toda a tua imagem

dentro de mim, se, então, tiveres coragem,

fecha-me os olhos com um beijo. Eu, Marco Pólo,

.

farei a nebulosa travessia

e o rastro da minha barca

segui-lo-ás em pensamento. Abarca

.

nele o mar inteiro, o porto, a ria…

E, se me vires chegar ao cais dos céus,

ver-me-ás, debruçado sobre as ondas, para dizer-te adeus.

Mar azul

Álvaro  Feijó

Um adeus português
Novembro 18, 2014

Nos teus olhos altamente perigosos

vigora ainda o mais rigoroso amor

a luz de ombros puros e a sombra

de uma angústia já purificada

.

Não tu não podias ficar presa comigo

à roda em que apodreço

apodrecemos

a esta pata ensanguentada que vacila

quase medita

e avança mugindo pelo túnel

de uma velha dor

.

Não podias ficar nesta cadeira

onde passo o dia burocrático

o dia-a-dia da miséria

que sobe aos olhos vem às mãos

aos sorrisos

ao amor mal soletrado

estupidez ao desespero sem boca

ao medo perfilado

à alegria sonâmbula à vírgula maníaca

do modo funcionário de viver

.

Não podias ficar nesta cama comigo

em trânsito mortal até ao dia sórdido

canino

policial

até ao dia que não vem da promessa

puríssima da madrugada

mas da miséria de uma noite gerada

por um dia igual

.

Não podias ficar presa comigo

à pequena dor que cada um de nós

traz docemente pela mão

a esta pequena dor à portuguesa

tão mansa quase vegetal

.

Não tu não mereces esta cidade não mereces

esta roda de náusea em que giramos

até à idiotia

esta pequena morte

e o seu minucioso e porco ritual

esta nossa razão absurda de ser

.

Não tu és da cidade aventureira

da cidade onde o amor encontra as suas ruas

e o cemitério ardente

da sua morte

tu és da cidade onde vives por um fio

de puro acaso

onde morres ou vives não de asfixia

mas às mãos de uma aventura de um comércio puro

sem a moeda falsa do bem e do mal

*

Nesta curva tão terna e lancinante

que vai ser que já é o teu desaparecimento

digo-te adeus

e como um adolescente

tropeço de ternura

por ti

de costas

Alexandre O’Neill

Poema de Natal
Dezembro 21, 2012

Para isso fomos feitos:
para lembrar e ser lembrados
para chorar e fazer chorar
para enterrar os nossos mortos —
por isso temos braços longos para os adeuses
mãos para colher o que foi dado
dedos para cavar a terra.


Assim será nossa vida:
uma tarde sempre a esquecer
uma estrela a se apagar na treva
um caminho entre dois túmulos —
por isso precisamos velar
falar baixo, pisar leve, ver

a noite dormir em silêncio.


Não há muito o que dizer:
uma canção sobre um berço
um verso, talvez de amor
uma prece por quem se vai —
mas que essa hora não esqueça
e por ela os nossos corações
se deixem, graves e simples.


Pois para isso fomos feitos:
para a esperança no milagre
para a participação da poesia
para ver a face da morte —
de repente nunca mais esperaremos…
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
nascemos, imensamente.

Vinícius de Moraes

Crepúsculo
Julho 12, 2010

É quando um espelho, no quarto, se enfastia.

Quando a noite se destaca da cortina,

quando a carne tem o travo da saliva,

e a saliva sabe a carne dissolvida.

Quando a força de vontade ressuscita,

quando o pé sobre o sapato se equilibra,

e quando às sete da tarde morre o dia,

que dentro de nossas almas se ilumina

com luz lívida, a palavra despedida.

David  Mourão Ferreira

A minha morte
Outubro 16, 2009

Eu quero, quando morrer, ser enterrada

ao pé do oceano ingénuo e manso,

que reze à meia-noite, em voz magoada

as orações finais do meu descanso.

Há-de embalar-me o berço derradeiro,

o mar amigo e bom para eu dormir !

Velei na vida o meu viver inteiro,

e nunca mais tive um sonho a que sorrir !

E tu hás-de lá ir… bem sei que vais…

E eu do brando sono hei-de acordar

para teus olhos ver uma vez mais !

E a lua há-de dizer-me, voz mansinha:

– Ai, não te assustes… dorme…foi o mar

que gemeu… não foi nada…´stá quietinha…

mar e pedras

Florbela Espanca

 

Névoa
Outubro 29, 2008

Procurei-te e não te encontrei,

embora tu soubesses que eu ia.

Foi fuga, imprevisto, adeus? Não sei.

Foi névoa baça sobre o meu dia…

.

Não conheço o correr da tua lei,

nem a luz invisível que te guia.

Pergunto a mim própria se estarei

uma vez mais seguindo a fantasia…

Algo me diz que eu sou importante

para ti, que agora, neste instante,

pensas em nós e sonhas com a hora

.

de acabar com os mal-entendidos.

Mas como acreditar? Os meus sentidos

buscam-te, tensos, e tu vais embora.

.

 Diana Sá

1º Soneto de amor da hora triste
Outubro 15, 2008

Não um adeus distante

ou um adeus de quem não torna cá,

nem espera tornar. Um adeus de até já,

como a alguém que se espera a cada instante.

.

Que eu voltarei. Eu sei que hei-de voltar

de novo para ti, no mesmo barco

sem remos e sem velas, pelo charco

azul do céu, cansado de lá estar.

E viverei em ti como um eflúvio, uma recordação.

E não quero que chores para fora,

Amor, que tu bem sabes que quem chora

.

assim mente. E  se quiseres partir e o coração

to peça, diz-mo. A travessia é longa… Não atino

talvez na rota. Que nos importa, aos dois, ir sem destino.

.

 Álvaro Feijó

Espero-te
Outubro 13, 2008

Porquê, se eu sei

que os escolhos entre nós

são demasiado grandes?

.

Porquê, se eu sei

como é difícil alterar

o  rumo das nossas vidas?

.

Porquê, se eu sei

que tu não tens a coragem

de  assumir o que sentes?

.

Mas, todavia, continuo a esperar-te,

a ver em ti o porto de destino

da minha caminhada pelo mundo.

.

Estou cansada deste jogo silencioso.

Não conheço o farol que te guia.

Mas não consigo dizer-te adeus…

 Diana Sá

Incógnita
Julho 18, 2008

O que queremos não sei, nem talvez tu

mesmo consigas discerni-lo bem…

… o encontro adiado… entre quem ?

Não sei o que pensar, nem talvez tu …

.

Não posso mais falar como se um

nós fôssemos, pois não o somos já …

… memória esparsas, cá e lá …

… pedaços de um sonho, ou de nenhum…

.

Não sei quem és, quem sou, que procuramos,

que caminho insólito pisamos,

que objectivo queremos atingir …

.

A vida é uma incógnita assumida,

sem direcção, sem leme, sem medida,

deixada ao sabor do existir …

nevoeiro

 Diana Sá