Um não acabar mais
Julho 1, 2020

Sou quem sou.
Um acaso inconcebível
como todos os acasos.
.
Outros antepassados
poderiam, afinal, ser os meus,
e então de outro ninho
sairia voando,
de debaixo de outro tronco
rastejaria, coberta de escamas.
.
No guarda-roupa da Natureza
há trajes de sobra:
o traje da aranha, da gaivota, do rato do campo.
Cada um assenta de imediato que nem uma luva
e usa-se obedientemente
até se gastar por completo.
.
Eu tampouco tive alternativa,
mas não me queixo.
Poderia ser alguém
muito menos individual.
Alguém do cardume, do formigueiro, do enxame zuninte,
uma partícula de paisagem agitada pelo vento.
.
Alguém muito menos feliz,
criado para dar a pele,
para a mesa festiva,
ou algo que nadasse sob a lente.
.
Uma árvore presa à terra,
pela marcha dos acontecimentos inconcebíveis.
.
Um indivíduo nascido sob a estrela ruim
que para outros seria boa.
.
E que seria se despertasse nas pessoas medo?
Ou só aversão?
Ou só piedade?
.
Se não tivesse nascido
na tribo certa
e todos os caminhos se me fechassem?
.
Até agora, a sorte
mostrou-se-me favorável.
.
Poderia não ter-me sido dada
a recordação dos bons instantes.
.
Poderia ter-me sido negada
a tendência para comparar.
.
Poderia até ser eu própria
mas sem o dom da admiração,
quer dizer – alguém completamente diferente.

Wislawa Szymborska

Soneto de Véspera
Fevereiro 9, 2018

Quando chegares e eu te vir chorando

de tanto te esperar, que te direi?

E da angústia de amar-te, te esperando

reencontrada, como te amarei?

.

Que beijo teu de lágrimas terei

Para esquecer o que vivi lembrando

e que farei da antiga mágoa quando

não puder te dizer por que chorei?

.

Como ocultar a sombra em mim suspensa

pelo martírio da memória imensa

que a distância criou – fria de vida

.

imagem tua que  eu compus serena

atenta ao meu apelo e à minha pena

e que quisera nunca mais perdida…

pensativa

Vinicius de Moraes