Como se atreve
Janeiro 16, 2018

O calendário ardente dos teus dias

a lista das tuas agonias

como se atreve

como não ousa serenar

serenar-te

no ímpeto fugidio e secreto

o sorriso

e a alta gravidade do estilo

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Ana Hatherly   em   Um calculador de Improbabilidades

Maldição
Agosto 1, 2015

Se por vinte anos, nesta furna escura,
deixei dormir a minha maldição,
– hoje, velha e cansada da amargura,
minh’alma se abrirá como um vulcão.

E, em torrentes de cólera e loucura,
sobre a tua cabeça ferverão
vinte anos de silêncio e de tortura,
vinte anos de agonia e solidão…

Maldita sejas pelo Ideal perdido!
Pelo mal que fizeste sem querer!
Pelo amor que morreu sem ter nascido!

Pelas horas vividas sem prazer!
Pela tristeza do que eu tenho sido!
Pelo esplendor do que eu deixei de ser!…

gold-falls-leonid-afremov

Olavo Bilac    em    “Poesias”

Todo o tempo é de poesia
Março 5, 2014

Todo  o tempo é de poesia,
desde a névoa da manhã
à névoa do outro dia.
Desde a quentura do ventre
à frigidez da agonia

todo o tempo é de poesia.
Entre bombas que deflagram,
corolas que se desdobram,
corpos que em sangue soçobram,
vidas que a amar se consagram.
Sob a cúpula sombria
das mãos que pedem vingança.
Sob o arco da aliança
da celeste alegoria.

 Todo o tempo é de poesia.

Desde a arrumação ao caos
à confusão da harmonia.

plumaAntónio  Gedeão