Pavio
Setembro 28, 2017

cora

 

És uma candeia ao canto do quarto
às vezes longe, às vezes perto.
Trazes o brilho e a coragem,
demonstras a fé nesta viagem…

– E eu estou aqui deitado,
às vezes ao frio, às vezes tapado
(cresce em mim a tempestade)
– Aqueço assim a saudade.

E no frio desta caverna
húmida e teimosamente eterna,
pingo a pingo, hoje, amanhã e depois,
lembro as vidas que não tivemos os dois.
Apenas este pavio
veio acalmar este frio
nas mãos, na mente e na alma.
Uma voz suave que acalma…

Cêra.
Quimera.
Sonho.
Coração tamanho.

António

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Sete
Junho 6, 2017

Pelas sete da tarde

é que o sonho começa:

a tua mão na minha

e a minha cabeça

encostada ao teu ombro.

Depois é o assombro

do amor reencontrado

a sós no nosso canto.

O silêncio e o espanto

a paixão o segredo

a recusa do medo

o meu falar alegre

o teu livro tão sério

a música tão leve

o instante tão breve

o sono e o mistério.

.

Às sete da manhã

é que o sonho termina.

E afrontamos o dia

a tua mão na minha

um trejeito na alma

um tremido na boca

até que a multidão

me leva e me sufoca

e nos desprende e solta

os meus dedos nos teus.

.

Há um barco que chega

um comboio que chora.

Num mar de gente à deriva

eu náufraga da hora

ergo um braço no ar

p’ra te dizer adeus.

beijinho

Rosa Lobato de Faria

Aquela triste e leda madrugada
Março 17, 2017

Aquela triste e leda madrugada,
cheia toda de mágoa e de piedade,
enquanto houver no mundo saudade,
quero que seja sempre celebrada.

Ela só, quando amena e marchetada
saía, dando ao mundo claridade,
viu apartar-se de uma outra vontade,
que nunca poderá ver-se apartada.

Ela só viu as lágrimas em fio,
que duns e doutros olhos derivadas,
se acrescentaram em grande e largo rio;

Ela viu as palavras magoadas,
que puderam tornar o fogo frio,
e dar descanso as almas condenadas.

Luiz de Camões

Dentro da noite
Fevereiro 19, 2017

Dentro da noite que me rodeia
negra como um poço de lado-a-lado
eu agradeço aos deuses que existem
por minha alma indomável.
Nas garras cruéis da circunstância
eu não tremo ou me desespero.
Sob os duros golpes da sorte
a minha cabeça sangra,
mas não se curva,
além deste lugar de raiva e choro
para somente o horror da sombra
e, ainda assim a ameaça do tempo
vai encontrar-me e achar-me, destemido.
Não importa se o portão é estreito,
não importa o tamanho do castigo.
Eu sou o dono do meu destino.
Eu sou o capitão da minha alma.

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William Ernest Henley (citado por Nelson Mandela enquanto estava preso).

A verdadeira liberdade
Novembro 15, 2016

A liberdade, sim, a liberdade!
A verdadeira liberdade!
Pensar sem desejos nem convicções.
Ser dono de si mesmo sem influência de romances!
Existir sem Freud nem aeroplanos,
sem cabarets, nem na alma, sem velocidades, nem no cansaço!

A liberdade do vagar, do pensamento são, do amor às coisas naturais
a liberdade de amar a moral que é preciso dar à vida!
Como o luar quando as nuvens abrem
a grande liberdade cristã da minha infância que rezava
estende de repente sobre a terra inteira o seu manto de prata para mim…
A liberdade, a lucidez, o raciocínio coerente,
a noção jurídica da alma dos outros como humana,
a alegria de ter estas coisas, e poder outra vez
gozar os campos sem referência a coisa nenhuma
e beber água como se fosse todos os vinhos do mundo!

Passos todos passinhos de criança…
Sorriso da velha bondosa…
Apertar da mão do amigo [sério?]…
Que vida que tem sido a minha!
Quanto tempo de espera no apeadeiro!
Quanto viver pintado em impresso da vida!

Ah, tenho uma sede sã. Dêem-me a liberdade,
dêem-ma no púcaro velho de ao pé do pote
da casa do campo da minha velha infância…
Eu bebia e ele chiava,
Eu era fresco e ele era fresco,
E como eu não tinha nada que me ralasse, era livre.
Que é do púcaro e da inocência?
Que é de quem eu deveria ter sido?
E salvo este desejo de liberdade e de bem e de ar, que é de mim?”

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Álvaro de Campos   em   “Poemas (Inéditos)

Não te amo
Outubro 28, 2016

Não te amo, quero-te: o amor vem da alma.
E eu na alma – tenho a calma,
a calma do jazigo.
Ai, não te amo, não.
.
Não te amo, quero-te: o amor é vida.
E a vida – nem sentida
a trago eu já comigo.
Ai, não te amo, não.
.
Ai, não te amo, não; e só te quero
de um querer bruto e fero
que o sangue me devora,
não chega ao coração.
.
Não te amo. És bela; e eu não te amo, ó bela.
Quem ama a aziaga estrela
que lhe luz na má hora
da sua perdição?
.
E quero-te, e não te amo, que é forçado,
do mau feitiço azado
este indigno furor.
Mas oh, não te amo, não.
.
E infame sou, porque te quero; e tanto
que de mim tenho espanto,
de ti medo e terror…
Mas amar!… não te amo, não.

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Almeida Garrett

No meu país
Agosto 3, 2016

No meu país não acontece nada

o corpo curva ao peso de uma alma que não sente

Todos temos janela para o mar voltada

o fisco vela e a palavra era para toda a gente

O Português paga calado cada prestação

Para banhos de sol nem casa se precisa

E cai-nos sobre os ombros quer a arma quer a sisa

e o colégio do ódio é patriótica organização

Há neste mundo seres para quem

a vida não contém contentamento

E a nação faz um apelo à mãe

atenta à gravidade do momento

Ruy Belo

  Morte ao Meio-Dia

Adão e Eva
Julho 28, 2016

Adão e Eva
olhámo-nos um dia,
e cada um de nós sonhou que achara
o par que a alma e a cara lhe pedia.

– E cada um de nós sonhou que o achara…

E entre nós dois
se deu, depois, o caso da maçã e da serpente,
… se deu, e se dará continuamente:

Na palma da tua mão,
me ofertaste, e eu mordi, o fruto do pecado.

– Meu nome é Adão…

E em que furor sagrado
os nossos corpos nus e desejosos
como serpentes brancas se enroscaram,
tentando ser um só!

Ó beijos angustiados e raivosos
que as nossas pobres bocas se atiraram
sobre um leito de terra, cinza e pó!

Ó abraços que os braços apertaram,
dedos que se misturaram!

Ó ânsia que sofreste, ó ânsia que sofri,
sede que nada mata, ânsia sem fim!
– tu de entrar em mim,
eu de entrar em ti.

Assim toda te deste,
e assim todo me dei:

Sobre o teu longo corpo agonizante,
meu inferno celeste,
cem vezes morri, prostrado…
Cem vezes ressuscitei
para uma dor mais vibrante
e um prazer mais torturado.

E enquanto as nossas bocas se esmagavam,
e as doces curvas do teu corpo se ajustavam
às linhas fortes do meu,
os nossos olhos muito perto, imensos,
no desespero desse abraço mudo,
confessaram-se tudo!
… Enquanto nós pairávamos, suspensos
entre a terra e o céu.

Assim as almas se entregaram,
como os corpos se tinham entregado,
assim duas metades se amoldaram
ante as barbas, que tremeram,
do velho Pai desprezado!

E assim Eva e Adão se conheceram:

Tu conheceste a força dos meus pulsos,
a miséria do meu ser,
os recantos da minha humanidade,
a grandeza do meu amor cruel,
os veios de oiro que o meu barro trouxe…

Eu, os teus nervos convulsos,
o teu poder,
a tua fragilidade,
os sinais da tua pele,
o gosto do teu sangue doce…

Depois…

Depois o quê, amor? Depois, mais nada,
– que Jeová não sabe perdoar!

O Arcanjo entre nós dois abrira a longa espada…

Continuamos a ser dois,
e nunca nos pudemos penetrar!

abraço 2

José Régio

Entre o luar e a folhagem
Junho 28, 2016

Entre o luar e a folhagem,
entre o sossego e o arvoredo,
entre o ser noite e haver aragem
passa um segredo.
Segue-o minha alma na passagem.

Ténue lembrança ou saudade,
princípio ou fim do que não foi,
não tem lugar, não tem verdade,
atrai e dói.
Segue-o meu ser em liberdade.

Vazio encanto ébrio de si!
Tristeza ou alegria o traz?
O que sou dele a quem sorri?
Não é nem faz.
Só de segui-lo me perdi.

sonho

Fernando Pessoa
19-8-1933

Quási
Maio 28, 2016

Um pouco mais de sol – eu era brasa,
um pouco mais de azul – eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe d’asa…
Se ao menos eu permanecesse àquém…

 

Assombro ou paz? Em vão… Tudo esvaído
num baixo mar enganador de espuma;
e o grande sonho despertado em bruma,
o grande sonho – ó dôr! – quási vivido…

Quási o amor, quási o triunfo e a chama,
quási o princípio e o fim – quási a expansão…
Mas na minh’alma tudo se derrama…
Entanto nada foi só ilusão!

De tudo houve um começo… e tudo errou…
– Ai a dôr de ser-quási, dor sem fim… –
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
asa que se elançou mas não voou…

Momentos d’alma que desbaratei…
Templos aonde nunca pus um altar…
Rios que perdi sem os levar ao mar…
Ânsias que foram mas que não fixei…

Se me vagueio, encontro só indicios…
Ogivas para o sol – vejo-as cerradas;
e mãos de herói, sem fé, acobardadas,
puseram grades sôbre os precipícios…

Num ímpeto difuso de quebranto,
tudo encetei e nada possuí…
Hoje, de mim, só resta o desencanto
das coisas que beijei mas não vivi…

. . . . . . . . . . . . . . .
. . . . . . . . . . . . . . .

Um pouco mais de sol – e fôra brasa,
um pouco mais de azul – e fôra além.
Para atingir, faltou-me um golpe de aza…
Se ao menos eu permanecesse àquem…

folhas de roseira

 

 

Mário de Sá-Carneiro     em     ‘Dispersão’