Devagar te amo
Março 6, 2018

Devagar te amo, e devagar assomo
os dedos à altura dos olhos, do cabelo
dos anéis de outro turno, que é só meu
por querê-lo, meu amor, como a ti mesma quero
nos tempos de passado e sem futuro.
Devagar avanço um dealbar de dias
que vida seriam – mesmo que morto, à noite,
eu voltasse amargurado mas presente,
calado e quedo, e devagar amando.

amores-impossiveis-3162451-1238

Pedro Tamen      em    “Rua de Nenhures”.

Anúncios

Maldição
Agosto 1, 2015

Se por vinte anos, nesta furna escura,
deixei dormir a minha maldição,
– hoje, velha e cansada da amargura,
minh’alma se abrirá como um vulcão.

E, em torrentes de cólera e loucura,
sobre a tua cabeça ferverão
vinte anos de silêncio e de tortura,
vinte anos de agonia e solidão…

Maldita sejas pelo Ideal perdido!
Pelo mal que fizeste sem querer!
Pelo amor que morreu sem ter nascido!

Pelas horas vividas sem prazer!
Pela tristeza do que eu tenho sido!
Pelo esplendor do que eu deixei de ser!…

gold-falls-leonid-afremov

Olavo Bilac    em    “Poesias”

Port Wine
Março 28, 2014

V.Porto

O Douro é um rio de vinho
que tem a foz em Liverpool e em Londres
e em Nova-York e no Rio e em Buenos Aires:
quando chega ao mar vai nos navios,
cria seus lodos em garrafeiras velhas,
desemboca nos clubes e nos bares.

O Douro é um rio de barcos
onde remam os barqueiros suas desgraças,
primeiro se afundam em terra as suas vidas
que no rio se afundam as barcaças.

Nas sobremesas finas, as garrafas
assemelham cristais cheios de rubis,
em Cape-Town, em Sidney, em Paris,
tem um sabor generoso e fino
o sangue que dos cais exportamos em barris.

As margens do Douro são penedos
fecundados de sangue e amarguras
onde cava o meu povo as vinhas
como quem abre as próprias sepulturas:
nos entrepostos dos cais, em armazéns,
comerciantes trocam por esterlino
o vinho que é o sangue dos seus corpos,
moeda pobre que são os seus destinos.

Em Londres os lords e em Paris os snobs,
no Cabo e no Rio os fazendeiros ricos
acham no Porto um sabor divino,
mas a nós só nos sabe, só nos sabe,
à tristeza infinita de um destino.

O rio Douro é um rio de sangue,
por onde o sangue do meu povo corre.
Meu povo, liberta-te, liberta-te!
Liberta-te, meu povo! – ou morre.

Joaquim Namorado

Este é o tempo
Abril 9, 2013

Este é o tempo

da selva mais obscura

.

Até o ar azul se tornou grades

e a luz do sol se tornou impura

.

Esta é a noite

densa de chacais

pesada de amargura

.

Este é o tempo em que os homens renunciam.

noite1

Sophia de Mello Breyner Andresen

Andei à minha procura
Maio 28, 2010

 

Andei á minha procura
P’las ruas onde nasci
Percorri minha amargura
Da procura, nada vi

Fui procurar na alegria
No sonho, no sofrimento
Só encontrei foi tormento
De sonhos estava vazia

Então passei p’la saudade
P’la rua e p’lo meu jardim
Perguntei à mocidade
Se havia sinal de mim

Fui aos sonhos de criança
Mas sabia de antemão
Que qual fosse a lembrança
Me feriu o coração

Andei á deriva no mar
Destas minhas ilusões
Mas só sofri decepções
Pois não me fui encontrar

E nesta procura de dor
De tanto procurar enfim
Encontrei-te meu amor
No que restava de mim.

Autor desconhecido

 

Migalhas
Abril 3, 2008

Vivemos de migalhas,

do pouco que a vida

nos deixa dar

um ao outro…

De lembranças, de sonhos,

de encontros virtuais,

de silêncios…

Esta amargura de estarmos longe

um do outro,

mesmo quando podíamos

estar perto…

Este carinho que certas palavras mágicas

abrem  no rol

das recordações…

Este pressentir de razões,

na sequência implacável do Destino…

Esta recusa, este medo,

este sofrimento…

Onde estás?

Pensas em mim?

isso-se-chama-amor-1

Diana  Sá