Soneto do Escuro
Março 11, 2015

Amor, tenho saudades de outra vida

feita só de mil dias transparentes :

não te esqueças de mim se vires perdida

esta voz nas palavras mais ausentes.

.

Porque é perto da morte que escrevemos,

cada verso contém uma ameaça :

e a ternura maior que nos dizemos

é feita de penumbra fria e baça.

.

Se a voz se dá no verso e na medida

é o medo, meu amor, mais que a vontade :

o verso nada pode contra a vida ;

.

sabê-lo é a nossa liberdade.

É o medo que nos versos esconjuro

como riso vibrando no escuro.

escuro

Luís Filipe Castro Mendes

Data
Agosto 5, 2012

Tempo de solidão e de incerteza
Tempo de medo e tempo de traição
Tempo de injustiça e de vileza
Tempo de negação

Tempo de covardia e tempo de ira
Tempo de mascarada e de mentira
Tempo de escravidão

Tempo dos coniventes sem cadastro
Tempo de silêncio e de mordaça
Tempo onde o sangue não tem rasto
Tempo da ameaça

Sophia Mello Breyner

Paisagem agreste
Agosto 2, 2011

Estavas sentado e havia uma paisagem agreste

nos teus olhos : as nuvens a prometerem chuva,

os espinheiros agitados com a erosão das dunas,

um mar picado, capaz de todos os naufrágios.

.

O teu silêncio fez estremecer subitamente a casa –

era a força do vento contra o corpo do navio ; uma

miragem fatal da tempestade ; e o medo da tragédia

a ameaça surda de um trovão que resgatasse a ira

dos deuses com o mundo. Quando te levantaste,

.

disseste qualquer coisa muito breve que me feriu

de morte como a lâmina de um punhal acabado

de comprar. ( Se trovejasse, podia ser um raio

a fracturar a falésia no espelho dos meus olhos).

.

Hoje, porém, já não sei que palavras foram essas –

de um temporal assim recordam-se sobretudo os despojos

que as ondas espalham de madrugada pelas praias.

Mª Rosário Pedreira