Soneto do Amigo
Novembro 30, 2009

Enfim, depois de tanto erro passado,

tantas retaliações, tanto perigo,

eis que ressurge noutro o velho amigo

nunca perdido, sempre reencontrado.

É bom sentá-lo novamente ao lado,

com os olhos que contêm o olhar antigo,

sempre comigo um pouco atribulado

e como sempre singular comigo.

Um bicho igual a mim, simples e humano,

sabendo se mover e comover

e a disfarçar com meu próprio engano.

O amigo : um ser que a vida não explica,

que só se vai ao ver outro nascer

e o espelho da minha alma multiplica.

Vinicius de Moraes

Soneto de Separação
Novembro 24, 2008

tempestade20ao20anoitecer

De repente, do riso fez-se o pranto

silencioso e branco como a bruma,

e das bocas unidas fez-se a espuma,

e das mãos espalmadas fez-se o espanto.

 

De repente, da calma fez-se o vento

que dos olhos desfez a última chama,

e da paixão fez-se o pressentimento

e do momento imóvel fez-se o drama.

 

De repente, não mais que de repente,

fez-se de triste o que se fez amante,

e de sozinho o que se fez contente.

 

Fez-se de amigo próximo o distante,

fez-se da vida uma aventura errante,

de repente, não mais que de repente.

 

 Vinicius de Morais