Caderno 1
Março 31, 2019

Quando me perco de novo neste antigo

caderno de capa preta de oleado –

que um dia rasguei com fúria e que um amigo

folha a folha recolou com vagar e paciência –

.

tudo me dói ainda como faca e me corta

pois diante de mim estão como sussurro e floresta

as longas tardes as misturadas noites

onde divago e divagam incessantemente

os venenosos perfumes mortais da juventude

.

E dói-me a luz como um jardim perdido

neve

Sophia de Mello Breyner Andresen

Vida 2
Julho 21, 2011

 Depois de algum tempo
aprendemos a diferença, entre dar a mão e acorrentar uma alma.

Aprendemos que
amar não significa apoiar-nos e que companhia nem sempre significa segurança.

Aprendemos que beijos não são
promessas.

E começamos a aceitar
as derrotas com a cabeça erguida.

Aprendemos a construir a nossa estrada no hoje,
porque o amanhã é incerto…

Depois de algum tempo aprendemos que o sol
queima se ficarmos expostos por muito tempo.

E aprendemos que não importa o quanto nós nos
importamos, algumas pessoas simplesmente não se importam…

E aprendemos que não importa o quão boa seja uma
pessoa, ela vai ferir-nos de vez em quando e precisamos perdoá-la por
isso.

Aprendemos que falar pode
aliviar as nossas dores emocionais.

Descobrimos que levamos anos para construir
confiança e apenas segundos para destruí-la, e que podemos fazer coisas num
instante, das quais nos podemos arrepender o resto da vida.

Aprendemos que as verdadeiras amizades continuam
a crescer mesmo a longas distâncias.

E O QUE IMPORTA NÃO É O QUE TEMOS NA VIDA, MAS
QUEM TEMOS NA VIDA.

E os amigos são a família que nos permitiram
escolher.
Percebemos que
as pessoas que mais amamos na vida são levadas de nós muito depressa, por isso
devemos deixá-las sempre com palavras de afecto, porque pode ser a última vez
que as vemos.

Descobrimos que levamos muito tempo para nos
tornarmos na pessoa que queremos ser, mas que o tempo é curto.

Aprendemos que não importa onde já chegámos, mas
para onde vamos, e se soubermos isso, qualquer lugar serve.

Aprendemos que, ou controlamos as nossas acções
ou elas acabam a controlar-nos.

E que ser flexível não significa ser fraco ou não ter personalidade, porque em
todas as situações existem sempre dois lados.

Aprendemos que paciência requer muita prática.

Descobrimos que algumas vezes as
pessoas de que menos esperamos são aquelas que nos estendem a mão e ajudam a
levantar quando caímos.

Descobrimos
que só porque alguém não nos ama da forma que nós gostaríamos, isso não
significa que esse alguém não nos ame com tudo o que pode.

Aprendemos que nem sempre é suficiente ser
perdoado por alguém, algumas vezes temos que perdoar-nos a nós próprios.

Aprendemos que
não importa em quantos pedaços o nosso coração foi partido, o mundo não pára
para que o possamos consertar.

Aprendemos que o tempo não é algo que possa
voltar para trás.

Aprendemos que
somos realmente fortes.

E que a
vida tem muito valor e que nós temos muito valor perante a
vida!

William  Shakespeare

Precisa-se um amigo
Novembro 7, 2010

Não precisa ser homem, basta ser humano, basta ter sentimentos, basta ter coração.
Precisa saber falar e calar, sobretudo saber ouvir.
Tem que gostar de poesia, de madrugada, de pássaro, de sol, da lua, do canto, dos ventos e das canções da brisa.
Deve ter amor, um grande amor por alguém, ou então sentir falta de não ter esse amor…
Deve amar o próximo e respeitar a dor que os passantes levam consigo.
Deve guardar segredo sem se sacrificar.

Não é preciso que seja de primeira mão, nem é imprescindível que seja de segunda mão.
Pode já ter sido enganado, pois todos os amigos são enganados.
Não é preciso que seja puro, nem que seja todo impuro, mas não deve ser vulgar.
Deve ter um ideal e medo de perdê-lo e, no caso de assim não ser, deve sentir o grande vácuo que isso deixa.
Tem que ter ressonâncias humanas, seu principal objetivo deve ser o de amigo.
Deve sentir pena das pessoa tristes e compreender o imenso vazio dos solitários.
Deve gostar de crianças e lastimar as que não puderam nascer.
Procura-se um amigo para gostar dos mesmos gostos, que se comova, quando chamado de amigo. Que saiba conversar de coisas simples, de orvalhos, de grandes chuvas e das recordações de infância. Precisa-se de um amigo para não se enlouquecer, para contar o que se viu de belo e triste durante o dia, dos anseios e das realizações, dos sonhos e da realidade.
Deve gostar de ruas desertas, de poças de água e de caminhos molhados, de beira de estrada, de mato depois da chuva, de se deitar no capim.
Precisa-se de um amigo que diga que vale a pena viver, não porque a vida é bela, mas porque já se tem um amigo.
Precisa-se de um amigo para se parar de chorar.
Para não se viver debruçado no passado em busca de memórias perdidas.
Que nos bata nos ombros sorrindo ou chorando, mas que nos chame de amigo, para ter-se a consciência de que ainda se vive.

 

Vinicius de Moraes

Caminho
Março 21, 2009

Sentir num olhar franco um amigo

e  em cada sorriso um abraço,

numa palavra quente um abrigo

contra o vento gelado do fracasso,

……

fazer face a um qualquer perigo,

de olhos fixos num ponto do Espaço

onde a luz que se aclara traz consigo

o sentido imenso desse passo,

……

é  ser feliz. Qual folha desgarrada,

entregue ao vaivém desta jornada,

uma vida consome-se depressa.

……

Possa ela abrir-se num canal,

neste mundo falhado ser sinal

dum mundo “mesmo” novo que amizadecomeça.

Diana Sá

A maior solidão
Outubro 10, 2008

A maior solidão é a do ser que não ama.

A maior solidão é a dor do ser que se ausenta,

que se defende, que se fecha,

que se recusa a participar da vida humana.

A maior solidão é a do homem encerrado em si mesmo,

no absoluto de si mesmo,

o que não dá a quem pede

o que ele pode dar de amor,

de amizade, de socorro.

O  maior solitário é o que tem medo de amar,

o que tem medo de ferir e ferir-se,

o ser casto da mulher, do amigo, do povo, do mundo.

Esse queima como uma lâmpada triste,

cujo reflexo entristece também tudo em torno.

Ele é a angústia do mundo que o reflete.

Ele é o que se recusa às verdadeiras fontes de emoção,

as que são o património de todos, e,

encerrado em seu duro privilégio,

semeia pedras do alto de sua fria e desolada torre.

.

 Vinicius de Moraes