Livro de Horas
Maio 7, 2017

Aqui, diante de mim,
eu, pecador, me confesso
de ser assim como sou.
Me confesso o bom e o mau
que vão ao leme da nau
nesta deriva em que vou.

Me confesso
possesso
de virtudes teologais,
que são três,
e dos pecados mortais,
que são sete,
quando a terra não repete
que são mais.

Me confesso
o dono das minhas horas.
O das facadas cegas e raivosas,
e o das ternuras lúcidas e mansas.
E de ser de qualquer modo
andanças
do mesmo todo.

Me confesso de ser charco
e luar de charco, à mistura.
De ser a corda do arco
que atira setas acima
e abaixo da minha altura.

Me confesso de ser tudo
que possa nascer em mim.
de ter raízes no chão
esta minha condição.
Me confesso de Abel e de Caim.

Me confesso de ser Homem.
De ser um anjo caído
do tal Céu que Deus governa;
de ser um monstro saído
do buraco mais fundo da caverna.

Me confesso de ser eu.
Eu, tal e qual como vim
para dizer que sou eu
aqui, diante de mim!


Miguel Torga
, em ‘O Outro Livro de Job’

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Palavras
Outubro 12, 2014

Diz-me,

diz-me que me ouves,

que aí, no silêncio dos astros que não

têm nome,

as minhas palavras chegam como um

cântico,

como um eco de outras idades,

diz-me sem medo

que me vês mais perto dos candelabros,

nos salões de incenso aonde regressei

para ver-te,

para dizer-te como isto dói,

como os anjos me abandonam sempre

que chega o outono.

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José  Agostinho  Baptista

Quando eu morrer
Fevereiro 20, 2014

Quando eu morrer, não digas a ninguém que foi por ti.

Cobre o meu corpo frio com um desses lençóis

que alagámos de beijos quando eram outras horas

nos relógios do mundo e não havia ainda quem soubesse

de nós; e leva-o depois para junto do mar, onde possa

ser apenas mais um poema – como esses que eu escrevia

assim que a madrugada se encostava aos vidros e eu

tinha medo de me deitar só com a tua sombra. Deixa

.

que nos meus braços pousem então as aves (que, como eu,

trazem entre as penas a saudade de um verão carregado

de paixões). E planta à minha volta uma fiada de rosas

brancas que chamem pelas abelhas, e um cordão de árvores

que preferem a noite – porque a morte deve ser clara

com o sal na bainha das ondas, e a cegueira sempre

me assustou (e eu já ceguei de amor, mas não contes

a ninguém que foi por ti). Quando eu morrer, deixa-me

.

a ver o mar do alto de um rochedo e não chores, nem

toques com os teus lábios a minha boca fria. E promete-me

que rasgas os meus versos em pedaços tão pequenos

como pequenos foram sempre os meus ódios; e que depois

os lanças na solidão de um arquipélago e partes sem olhar

para trás nenhuma vez: se alguém os vir de longe brilhando

na poeira, cuidará que são flores que o vento despiu, estrelas

que se escaparam das trevas, pingos de luz, lágrimas de sol,

as penas de um anjo que perdeu as asas por amor.

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Maria do Rosário  Pedreira

Os anos são degraus
Agosto 23, 2011


Foto @ Life is Beautiful


Os anos são degraus, a Vida a escada.
Longa ou curta, só Deus pode medi-la.
E a Porta, a grande Porta desejada,
só Deus pode fechá-la,
pode abri-la.

São vários os degraus; alguns sombrios,
outros ao sol, na plena luz dos astros,
com asas de anjos, harpas celestiais.
Alguns, quilhas e mastros
nas mãos dos vendavais.

Mas tudo são degraus; tudo é fugir
à humana condição.
Degrau após degrau,
tudo é lenta ascensão.

Senhor, como é possível a descrença,
imaginar, sequer, que ao fim da Estrada,
se encontre após esta ansiedade imensa
uma porta fechada
e mais nada?

Fernanda de Castro, in “Asa do Espaço”

Coisa mais linda
Abril 29, 2010

 

Vai-te, Poesia
Janeiro 3, 2009

Deixa-me ver a vida

exacta e intolerável

neste planeta feito de carne humana a chorar

onde um anjo me arrasta todas as noites

para casa pelos cabelos

com bandeiras de lume nos olhos,

para fabricar sonhos

carregados de dinamite de lágrimas.

.

Vai-te, Poesia .

Não quero cantar.

Quero gritar!

.

José Gomes Ferreira

Não é fácil…
Novembro 2, 2008

É bom ler-te,

imaginar o que queres dizer

nas entrelinhas dos teus versos.

Mas não sei se és tu

ou um anjo por ti que me escreve…

Gostas de te envolver em mistério,

de não abrir o jogo.

E eu continuo na incerteza…

Não sabes como me interrompes o fluir do sono,

há já tantos dias…

Não é fácil tentar compreender

o que tu me queres esconder…

Diana Sá