Horas breves de meu contentamento
Novembro 9, 2016

Horas breves de meu contentamento,

nunca me pareceu, quando vos tinha,

que vos visse mudadas tão asinha

em tão compridos anos de tormento.

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As altas torres, que fundei no vento,

levou, enfim, o vento que as sustinha:

do mal, que me ficou, a culpa é minha,

pois sobre coisas vãs fiz fundamento.

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Amor com brandas mostras aparece,

tudo possível faz, tudo assegura;

mas logo no melhor desaparece.

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Estranho mal! Estranha desventura!

Por um pequeno bem, que desfalece,

um bem aventurar, que sempre dura!

castelo

Luiz de Camões

Dei-te os dias
Fevereiro 16, 2015

Dei-te os dias, as horas e os minutos
destes anos de vida que passaram;
nos meus versos ficaram
imagens que são máscaras anónimas
do teu rosto proibido;
a fome insatisfeita que senti
era de ti,
fome do instinto que não foi ouvido.

Agora retrocedo, leio os versos,
conto as desilusões no rol do coração,
recordo o pesadelo dos desejos,
olho o deserto humano desolado,
e pergunto porquê, por que razão
nas dunas do teu peito o vento passa
sem tropeçar na graça
do mais leve sinal da minha mão…

máscara

Miguel Torga.

Idade
Junho 11, 2014

fósforo

Tenho uma idade que não é a minha
embora os anos afirmem o contrário.
Os anos são fósforos a arder na ponta dos dedos,
são um conjunto de dias desfocados e sem nexo
desenhando na cara linhas horizontais,
desordenadas e imperfeitas.

Paulo Eduardo Campos

Novo Ano
Dezembro 31, 2013

Malta!

Ouçam a terra a girar!

Estremeçam, sente-se o ano a chegar!

Olhem, o nevoeiro denso

ávido e intenso, a vir do mar.

Preparem-se que a guerra é hoje.

Chegou ontem pela calada,

os castelos estão tomados,

os jardins amordaçados.

Acordem todos, alerta e bem

que o amanhã é uma traça

tão negra no futuro que nos colhe

que entre os dedos da desgraça

sem chegar nos ultrapassa.

Malta, todos na mesma? Arre!

Às armas, em pé, peito ao vento

que eu nem sei como aguento.

Mas nada foi diferente!

Povo dolente e tudo dormente!

Há tanto que começou

o tempo da incoerência

que eu ardo de impaciência.

Malta! Olhem o louco horizonte!

Pum! Ano Novo e agora?

Bom Ano? Há quem mereça?

Pum! Nevoeiro! Caiu a ponte!

De quem é esta cabeça?

Conceição Roque da Silveira