O Poeta
Outubro 22, 2018

O poeta não gosta de palavras:
escreve para se ver livre delas.

A palavra
torna o poeta
pequeno e sem invenção.

Quando,
sobre o abismo da morte,
o poeta escreve terra,
na palavra ele se apaga
e suja a página de areia.

Quando escreve sangue
o poeta sangra
e a única veia que lhe dói
é aquela que ele não sente.

Com raiva,
o poeta inicia a escrita
como um rio desflorando o chão.
Cada palavra é um vidro em que se corta.

O poeta não quer escrever.
Apenas ser escrito.

Escrever, talvez,
apenas enquanto dorme.

MIA COUTO

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Os meus passos
Novembro 15, 2017

Os meus passos de criança não deixavam pegadas,

a tua mão de areia e de espuma

atraía-me para o teu seio

e eu partia, numa braçada confiante

em direcção ao azul dos gritos das gaivotas,

esse azul reluzente ao nível dos olhos

que me chamam sempre mais longe

em busca da vaga que seria enfim minha.

Hoje olho-te, mar,

e lembro-me das lágrimas vertidas,

do sal amargo do regresso,

da tua cor cambiante

que me traz o esquecimento

e eu permaneço lá, apaziguada e feliz,

a olhar a maré do presente

que já não é para mim o chamamento

da tua mortal imensidão.

mar bravo

Isabel  Meyrelles

momentos de mar
Agosto 15, 2016

 

a espuma adormece na areia
o cansaço de tanto andado

uma gaivota deixa o bando
primeiro passo para a liberdade

ao longe um barco acena
promessas de viagens a fazer

no céu uma nuvem brinca com o sol
e eu perco-me de tanto infinito

A.H. Cravo

gaivotas 3

Quando eu morrer
Julho 4, 2016

Quando eu morrer quero as tuas mãos nos meus olhos:
quero a luz e o trigo das tuas mãos amadas
passando uma vez mais sobre mim sua frescura:
sentir a suavidade que mudou o meu destino.
.
Quero que vivas enquanto eu, adormecido, te espero,
quero que teus ouvidos sigam ouvindo o vento,
que sintas o perfume do mar que amamos juntos
e que sigas pisando a areia que pisamos.
.
Quero que o que amo continue vivo
e a ti amei e cantei sobre todas as coisas,
por isso segue tu florescendo, florida,

para que alcances tudo o que meu amor te ordena,
para que passeie minha sombra por teus cabelos,
para que assim conheçam a razão do meu canto.

Neruda
Pablo Neruda    em  Cem Sonetos de Amor

 

As tuas mãos
Fevereiro 8, 2016

As tuas mãos terminam em segredo.
Os teus olhos são negros e macios
Cristo na cruz os teus seios (?) esguios
e o teu perfil princesas no degredo…

Entre buxos e ao pé de bancos frios
nas entrevistas alamedas, quedo
O vendo põe o seu arrastado medo
Saudoso o longes velas de navios.

Mas quando o mar subir na praia e for
arrasar os castelos que na areia
as crianças deixaram, meu amor,

será o haver cais num mar distante…
Pobre do rei pai das princesas feias
no seu castelo à rosa do Levante !

gaivotas 3

Fernando Pessoa, em ‘Cancioneiro’

Sinto
Julho 14, 2014

Sinto que podia escrever o mar sobre os nossos passos.

Sinto (desde o céu) este aguaceiro

que descreve um poema nos nossos corpos molhados.

Talvez a calçada suba demais para nós

e o tempo não espere pelos nossos dias felizes.

A tua mão agarra com força a minha e não deixa

que este plano escorregadio me puxe para longe.

Estamos sós.

Estamos juntos. As nossa almas tocam-se no princípio e no fim,

onde começa e nunca mais acaba este amor

que nasceu antes de ti e de mim.

Sinto que tocamos o horizonte no limiar de um abraço,

no sabor de um beijo.

Trazemos os bolsos cheios de vontade de percorrer

as ruas virgens de sonho e de ódio.

Somos a praia num dia de verão – a minha luz alimenta o teu corpo

e o meu mar arrasta a tua areia para os confins do meu coração,

até onde ninguém havia antes chegado,

até onde eu acabo e tu começas – dentro de mim, dentro de nós.

Sinto que estás em todos os cantos do meu corpo.

Sinto-me estremecer no teu calor.

Sinto o nosso amor no meu coração.

borboleta-amor

Beatriz  Reina

As palavras interditas
Fevereiro 14, 2013

Os navios existem e existe o teu rosto
encostado ao rosto dos navios.
Sem nenhum destino flutuam nas cidades,
partem no vento, regressam nos rios.

Na areia branca, onde o tempo começa,
uma criança passa de costas para o mar.
Anoitece. Não há dúvida, anoitece.
É preciso partir, é preciso ficar.

Os hospitais cobrem-se de cinza.
Ondas de sombra quebram nas esquinas.
Amo-te… E abrem-se janelas
mostrando a brancura das cortinas.

As palavras que te envio são interditas
até, meu amor, pelo halo das searas;
se alguma regressasse, nem já reconhecia
o teu nome nas minhas curvas claras.

Dói-me esta água, este ar que se respira,
dói-me esta solidão de pedra escura,
e estas mãos noturnas onde aperto
os meus dias quebrados na cintura.

E a noite cresce apaixonadamente.
Nas suas margens vivas, desenhadas,
cada homem tem apenas para dar
um horizonte de cidades bombardeadas.

barco 2
Eugénio  de  Andrade

A concha
Junho 25, 2009

A minha casa é concha. Como os bichos,

segreguei-a de mim com paciência:

fechada de marés, a sonhos e a lixos,

o horto e os muros só areia e ausência.

Minha casa sou eu e os meus caprichos.

O  orgulho carregado de inocência

se às vezes dá uma varanda, vence-a

o sal que os santos esboreou nos nichos.

E  telhados de vidro e escadarias

frágeis, cobertas de hera, oh bronze falso!

Lareira aberta pelo vento, as salas frias.

A minha casa… Mas é outra a história:

sou eu ao vento e à chuva, aqui descalço,

sentado numa pedra da memória.

coraislf4

Vitorino Nemésio