Um não acabar mais
Julho 1, 2020

Sou quem sou.
Um acaso inconcebível
como todos os acasos.
.
Outros antepassados
poderiam, afinal, ser os meus,
e então de outro ninho
sairia voando,
de debaixo de outro tronco
rastejaria, coberta de escamas.
.
No guarda-roupa da Natureza
há trajes de sobra:
o traje da aranha, da gaivota, do rato do campo.
Cada um assenta de imediato que nem uma luva
e usa-se obedientemente
até se gastar por completo.
.
Eu tampouco tive alternativa,
mas não me queixo.
Poderia ser alguém
muito menos individual.
Alguém do cardume, do formigueiro, do enxame zuninte,
uma partícula de paisagem agitada pelo vento.
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Alguém muito menos feliz,
criado para dar a pele,
para a mesa festiva,
ou algo que nadasse sob a lente.
.
Uma árvore presa à terra,
pela marcha dos acontecimentos inconcebíveis.
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Um indivíduo nascido sob a estrela ruim
que para outros seria boa.
.
E que seria se despertasse nas pessoas medo?
Ou só aversão?
Ou só piedade?
.
Se não tivesse nascido
na tribo certa
e todos os caminhos se me fechassem?
.
Até agora, a sorte
mostrou-se-me favorável.
.
Poderia não ter-me sido dada
a recordação dos bons instantes.
.
Poderia ter-me sido negada
a tendência para comparar.
.
Poderia até ser eu própria
mas sem o dom da admiração,
quer dizer – alguém completamente diferente.

Wislawa Szymborska

Que tempo é este?
Maio 1, 2020

Dia após dia,

esta angústia cinzenta

de não saber o que virá…

.

Procuro no aparelho

o rasto dos amigos,

a razão da existência…

.

As notícias não acalmam,

embora não aturdam

como noutras paragens…

.

Que tempo é este,

escuro, traiçoeiro,

denso e impalpável?

.

As árvores esverdecem,

a Primavera chega,

mas o luto sobe em nós…

azul-e-verde

Diana Sá

 

Destino 4
Outubro 22, 2019

Não te amei sob as árvores.

Nem bebi a tua boca ao pé das fontes.

Respirei-te, na tarde,

quando as sombras do outono

desciam, rápidas, sobre mim.

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Luísa Dacosta

Quando vier a Primavera
Março 22, 2019

Quando vier a Primavera,
se eu já estiver morto,
as flores florirão da mesma maneira
e as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.

Sinto uma alegria enorme
ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma

Se soubesse que amanhã morria
e a Primavera era depois de amanhã,
morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
e gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
porque tudo é real e tudo está certo.

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.

Primavera 4

Alberto Caeiro,    em    “Poemas Inconjuntos
(Heterónimo de Fernando Pessoa)

Escrevo-te
Agosto 16, 2018

 Escrevo-te com o fogo e a água.

 Escrevo-te no sossego feliz das folhas e das sombras.

Escrevo-te quando o saber é sabor, quando tudo é surpresa.

Vejo o rosto escuro da terra em confins indolentes.

 Estou perto e estou longe num planeta imenso e verde.

 O que procuro é um coração pequeno, um animal perfeito e suave.

 Um fruto repousado, uma forma que não nasceu, um torso ensanguentado,

 uma pergunta que não ouvi no inanimado,

 um arabesco talvez de mágica leveza.

Quem ignora o sulco entre a sombra e a espuma?

 Apaga-se um planeta, acende-se uma árvore.

 As colinas inclinam-se na embriaguez dos barcos.

 O vento abriu-me os olhos, vi a folhagem do céu,

 o grande sopro imóvel da primavera efémera.

.

 António Ramos Rosa

(Volante Verde – 1986)

Porque a recusas.
Janeiro 8, 2018

Porque a recusas, esta cidade despovoa-se, o granito
torna-se subitamente uma resina pegajosa e hostil.

As gaivotas fogem para o mar com gritos roucos, um
arrepio atravessa as ruas como sinal de inverno.

Encontro as portas fechadas ao longo das paredes; um
curto circuito acaba de apagar o sol, a lua vazia ergue
uma maré que escava furiosamente as praias.

O espaço minga, as folhas secas tombam com um riso
grato: sabem que foram nas árvores a última primavera.

Um coração está pousado no solo e eu tropeço na sua
derradeira pulsação. Já o vi algures, creio, antes do medo.

Foz

Egito Gonçalves    em    Luz Vegetal

Redenção
Novembro 21, 2017

Vozes do mar, das árvores, do vento!

Quando, às vezes, num sonho doloroso,

me embala o vosso canto poderoso,

eu julgo igual ao meu vosso tormento…

.

Verbo crepuscular e íntimo alento

das coisas mudas, salmo misterioso,

não serás tu, queixume vaporoso,

o suspiro do mundo e o seu lamento?

.

Um espírito habita a imensidade:

uma ânsia cruel de liberdade

agita e abala as formas fugitivas.

.

E eu compreendo a vossa língua estranha

vozes do mar, da selva, da montanha…

Almas irmãs da minha, almas cativas!

agreste

Antero de Quental

 

O Vento
Agosto 15, 2017

O cipreste inclina-se em fina reverência
e as margaridas estremecem, sobressaltadas.

A grande amendoeira consente que balancem
suas largas folhas transparentes ao sol.

Misturam-se uns aos outros, rápidos e frágeis,
os longos fios da relva, lustrosos, lisos cílios verdes.

Frondes rendadas de acácias palpitam inquietantemente
com o mesmo tremor das samambaias
debruçadas nos vasos.

Fremem os bambus sem sossego,
num insistente ritmo breve.

O vento é o mesmo:
mas sua resposta é diferente, em cada folha.

Somente a árvore seca fica imóvel,
entre borboletas e pássaros.

Como a escada e as colunas de pedra,
ela pertence agora a outro reino.
Se movimento secou também, num desenho inerte.
Jaz perfeita, em sua escultura de cinza densa.

O vento que percorre o jardim
pode subir e descer por seus galhos inúmeros:

ela não responderá mais nada,
hirta e surda, naquele verde mundo sussurrante.

Cecília Meireles    em     “Mar Absoluto”

Quando vier a Primavera
Março 5, 2017

É sempre agora
Outubro 7, 2016

O tempo não existe:
eu decreto assim.
Esses vultos esquivos
são rostos, são nomes,
são as horas felizes
(são o que foi embora?).

O tempo não existe:
tudo continua aqui,
e cresce
como uma árvore
pesada de frutos que são
máscaras, palavras, promessas,
bocas ferozes.

O tempo não existe:
tudo se resume ao instante.
O antes disso
é um rio que corre
mas não passa.
(Basta chamar:
é sempre agora).

foto12relogio

. Lya Luft    em    O Tempo é um Rio que Corre .