De novo a claridade
Abril 4, 2015

Veio de novo a Primavera pelo labirinto das ruas,

mas acordou a paisagem sem demora.

É um tempo à medida dos habitantes da cidade,

conhece os seus percursos

ao pormenor.

.

Não veio em voo altivo da aurora indiferente,

seguiu por avenidas

onde não a conhecem,

por becos onde não a esperavam.

Como se perdem sem conta os passos dos transeuntes

em diversas vias

mas encontram sempre a claridade…

.

Fez de cada varanda uma falésia sobre o oceano,

de cada ilha um novo arquipélago

sem sombras,

é a alma comum da urbe.

Não está acompanhado quem se encontra acompanhado,

mas quem recebeu a Primavera

de verdade.

Por vielas onde se dissimulam criminosos,

por alamedas

em que as árvores são fantasmas

ameaçadores,

não há quem a não tenha acolhido em sua casa.

E a luz cobriu o céu à mesma hora.

pessegueiro

Joel  Henriques    em    Terra Prometida

Beleza
Março 19, 2014

Porto

Entrei no café com um rio na algibeira

e pu-lo no chão,
a vê-lo correr
da imaginação...

A seguir, tirei do bolso do colete
nuvens e estrelas
e estendi um tapete
de flores
a concebê-las.

Depois, encostado à mesa,
tirei da boca um pássaro a cantar
e enfeitei com ele a Natureza
das árvores em torno
a cheirarem ao luar
que eu imagino.

E agora aqui estou a ouvir
A melodia sem contorno
Deste acaso de existir
-onde só procuro a Beleza
para me iludir
dum destino.

José Gomes Ferreira

A Festa do Silêncio
Outubro 1, 2013

Escuto na palavra a festa do silêncio.
Tudo está no seu sítio. As aparências apagaram-se.
As coisas vacilam tão próximas de si mesmas.
Concentram-se, dilatam-se as ondas silenciosas.
É o vazio ou o cimo? É um pomar de espuma.

Uma criança brinca nas dunas, o tempo acaricia,
o ar prolonga. A brancura é o caminho.
Surpresa e não surpresa: a simples respiração.
Relações, variações, nada mais. Nada se cria.
Vamos e vimos. Algo inunda, incendeia, recomeça.

Nada é inacessível no silêncio ou no poema.
É aqui a abóbada transparente, o vento principia.
No centro do dia há uma fonte de água clara.
Se digo árvore a árvore em mim respira.
Vivo na delícia nua da inocência aberta.

espuma
António  Ramos  Rosa

Fui sabendo de mim
Agosto 27, 2013

Fui sabendo de mim

mia couto

por aquilo que perdia

pedaços que saíram de mim
com o mistério de serem poucos
e valerem só quando os perdia

fui ficando
por umbrais
aquém do passo
que nunca ousei

eu vi
a árvore morta
e soube que mentia

Mia Couto   em   “Raiz de Orvalho e Outros Poemas

Canção contra o Destino
Maio 28, 2013

Se é para morrer

quero morrer muitas vezes,

mais do que as que soube ter vivido

e fui eterno sem o saber.

.

Se é para morrer

morrerei tantas vezes

que entre corpo e tempo

minha alma perderá caminho.

.

E morrerei

de tudo, em cada instante.

.

Morrerei até ser árvore,

renascendo em estação

para além do tempo, para além da luz.

.

Se é para morrer

que seja como o amor :

tanto e sempre

que não será derradeira a última vez.

Mia Couto

Árvores
Novembro 4, 2012

Um renque de árvores lá longe, lá para a encosta.
Mas o que é um renque de árvores? Há árvores apenas.
Renque e o plural árvores não são coisas, são nomes.

Tristes das almas humanas, que põem tudo em ordem,
que traçam linhas de coisa a coisa,
que põem letreiros com nomes nas árvores absolutamente reais,


e desenham paralelos de latitude e longitude
sobre a própria terra inocente e mais verde e florida do que isso.

 Alberto Caeiro

A meio do caminho
Maio 24, 2010

 

Fico entre o céu e a terra.

Choro só para dentro.

Sou como a árvore nua

que ao alto os ramos indica:

ergue as asas, mas não voa,

tem raizes, mas não desce.

Alberto de Lacerda