A Festa do Silêncio
Outubro 1, 2013

Escuto na palavra a festa do silêncio.
Tudo está no seu sítio. As aparências apagaram-se.
As coisas vacilam tão próximas de si mesmas.
Concentram-se, dilatam-se as ondas silenciosas.
É o vazio ou o cimo? É um pomar de espuma.

Uma criança brinca nas dunas, o tempo acaricia,
o ar prolonga. A brancura é o caminho.
Surpresa e não surpresa: a simples respiração.
Relações, variações, nada mais. Nada se cria.
Vamos e vimos. Algo inunda, incendeia, recomeça.

Nada é inacessível no silêncio ou no poema.
É aqui a abóbada transparente, o vento principia.
No centro do dia há uma fonte de água clara.
Se digo árvore a árvore em mim respira.
Vivo na delícia nua da inocência aberta.

espuma
António  Ramos  Rosa

Fui sabendo de mim
Agosto 27, 2013

Fui sabendo de mim

mia couto

por aquilo que perdia

pedaços que saíram de mim
com o mistério de serem poucos
e valerem só quando os perdia

fui ficando
por umbrais
aquém do passo
que nunca ousei

eu vi
a árvore morta
e soube que mentia

Mia Couto, em “Raiz de Orvalho e Outros Poemas

Canção contra o Destino
Maio 28, 2013

Se é para morrer

quero morrer muitas vezes,

mais do que as que soube ter vivido

e fui eterno sem o saber.

.

Se é para morrer

morrerei tantas vezes

que entre corpo e tempo

minha alma perderá caminho.

.

E morrerei

de tudo, em cada instante.

.

Morrerei até ser árvore,

renascendo em estação

para além do tempo, para além da luz.

.

Se é para morrer

que seja como o amor :

tanto e sempre

que não será derradeira a última vez.

Mia Couto

Árvores
Novembro 4, 2012

Um renque de árvores lá longe, lá para a encosta.
Mas o que é um renque de árvores? Há árvores apenas.
Renque e o plural árvores não são coisas, são nomes.

Tristes das almas humanas, que põem tudo em ordem,
que traçam linhas de coisa a coisa,
que põem letreiros com nomes nas árvores absolutamente reais,


e desenham paralelos de latitude e longitude
sobre a própria terra inocente e mais verde e florida do que isso.

 Alberto Caeiro

A meio do caminho
Maio 24, 2010

 

Fico entre o céu e a terra.

Choro só para dentro.

Sou como a árvore nua

que ao alto os ramos indica:

ergue as asas, mas não voa,

tem raizes, mas não desce.

Alberto de Lacerda