Hoje
Fevereiro 5, 2020

Hoje que a tarde é calma e o céu tranqüilo,
e a noite chega sem que eu saiba bem,
quero considerar-me e ver aquilo
que sou, e o que sou o que é que tem.

Olho por todo o meu passado e vejo
que fui quem foi aquilo em torno meu,
salvo o que o vago e incógnito desejo
se ser eu mesmo de meu ser me deu.

Como a páginas já relidas, vergo
minha atenção sobre quem fui de mim,
e nada de verdade em mim albergo
salvo uma ânsia sem princípio ou fim.

Como alguém distraído na viagem,
segui por dois caminhos par a par.
Fui com o mundo, parte da paisagem;
comigo fui, sem ver nem recordar.

Chegado aqui, onde hoje estou, conheço
que sou diverso no que informe estou.
No meu próprio caminho me atravesso.
Não conheço quem fui no que hoje sou.

Serei eu, porque nada é impossível,
vários trazidos de outros mundos, e
no mesmo ponto espacial sensível
que sou eu, sendo eu por me ’star aqui ?

Serei eu, porque todo o pensamento
podendo conceber, bem pode ser,
um dilatado e múrmuro momento,
de tempos-seres de quem sou o viver ?

fp

 Fernando Pessoa

Soneto de Fidelidade
Julho 17, 2011

De tudo ao meu amor serei atento
antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
que mesmo em face do maior encanto
dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
e em seu louvor hei de espalhar meu canto
e rir meu riso e derramar meu pranto
ao seu pesar ou seu contentamento.

E assim, quando mais tarde me procure
quem sabe a morte, angústia de quem vive,
quem sabe a solidão, fim de quem ama,

eu possa me dizer do amor (que tive):
que não seja imortal, posto que é chama,

mas que seja infinito enquanto dure.

Vinícius de Morais